Por FRED LINARDI

A mulher maquiada, vestida para ser elegante confunde quem a observa. Se ela tivesse vindo da região oposta a que veio, teria saído de seu luxuoso apartamento em Higienópolis, de cores claras e móveis da última moda. Mas não veio de lá. Veio da rua de baixo, de uma região que em nada parece nobre. Seu cabelo é ralo, curto e oxigenado; o rosto maquiado quase como se fosse uma velha vedete fora dos holofotes mostra seus olhos errantes que, assim como seu corpo, magro, buscam algo que nunca conseguem encontrar. Ao seu lado direito, lojas e um teatro, mas ela volta-se ao outro lado, em direção à caçamba de entulhos. Passa os olhos rapidamente pelas tralhas e não vê nada que lhe interessa. Volta à amarga realidade e segue em passos lentos a um destino incerto.

Se olhasse para mim, veria um jovem sentado na escada do teatro, com as costas apoiadas em uma coluna de sustentação. Talvez pensasse na sua própria juventude e questionasse a minha calma, a minha espera por sabe-se lá o quê. Omitiria suas opiniões de como a juventude é, mesmo sem saber ao certo o que pensa. Pois é difícil pensar com tantas pessoas passando ao mesmo tempo, com tanta perturbação. Pode ser que ela se sentisse ridícula caso viesse perguntar algo para mim, como as horas.

De fato, estou a esperar, mas não por uma peça ou coisa assim. Marquei uma entrevista com um personagem para uma reportagem e espero por ele, certo de minha pontualidade. Se aquela mulher me perguntasse as horas, certamente teria a reposta certa.

Meu entrevistado, porém, logo chegou e pudemos entrar. Ele veio sem figurino, sem maquiagem tampouco as alegorias. No trabalho, é um palhaço. Na conversa com ele, descobri que o palhaço é um ser injustiçado, para quem falta respeito por parte das pessoas. Não basta colocar um nariz vermelho para ser palhaço, nem mesmo fazer graça. É preciso estar pronto para tudo, de preferência para aquilo que não se sabe fazer. É preciso buscar o ridículo em si mesmo o tempo todo, mesmo fora dos holofotes. E não é para fazer graça, mas sim para ver que tipo de sentimento aparece a partir disso. É uma constante busca pelo ridículo.

Ao contrário daquela errante mulher, este rapaz tem a cara limpa. Seu chapéu esconde o couro cujos cabelos foram cortados rente à pele, ao mesmo tempo em que nada tem no lugar das sobrancelhas, que também não foram poupadas pela navalha. “Os pelos acabam escondendo as expressões e texturas reais do nosso corpo”, ele explica, indicando que este é apenas mais um experimento. Sentir-se é uma premissa. Olhar para si mesmo como um observador externo ajuda também. E o que faz de um palhaço um Palhaço é a performance em si, mesmo que interior. Os próprios bufões surgiram a partir de imitações de pessoas célebres e nunca surgiram para ter um papel honroso, pois nunca tiveram este objetivo.

Acabada a entrevista, saí do saguão do teatro, desci as escadas e passei pela caçamba. Lamentei pela mulher não estar mais lá. Gostaria de perguntá-la como é não ser um palhaço.

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