Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO 

 

— Pode abrir bem a boca. Sorria. Agora fique séria. Agora sorria novamente. Vire de lado. O outro lado. Levanta a cabeça. Abaixa. Pronto! Agora é só se dirigir àquela outra sala e se sentar naquela cadeira. Abra a boca novamente. Mais um pouco de paciência… e já vamos acabar… Agora mais uns cliques. Isso, muito bem, tá indo muito bem… Boca bem aberta de novo. Dá um sorriso bem forçado, vamos lá… Nossa, ficou lindo!

 

— Acabou?
 
— Aparentemente sim. Agora vou checar como ficaram as fotos e qualquer problema te chamo novamente. É só esperar ali na frente.
 
— Ok, obrigada.
 
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— Pode vir mais um pouquinho? É que as fotos de cima não ficaram muito boas…
 
— Ai, jura? Tô tão atrasada. Achei que fosse mais rápido.
 
— Mas é rapidinho. Mais um pouco de paciência, vamos lá. Abra bem a boca novamente e olha pra cima. Pronto, isso. Agora nesse outro ângulo. Está indo muito bem. Desse lado agora. Mais um pouquinho. Isso. Beleza. Acho que agora está ok.
 
— Ufa, até que enfim…
 
— Mas espera mais um pouquinho lá na frente, já volto.
 
                                    ……………………………. 


Na sala toda branca e azul-bebê, só eu, sentada num sofá branco que até dói nos olhos. Dá medo de encostar a mão nele, apoiar a revista que estou lendo. Estou suada, andei muito para chegar até lá. Calculava que fosse mais perto de casa, fazia calor, eu estava apressada. Andei rápido. Agora aguardo por Antônio para ser liberada.
 
Enquanto ele fotografava meus dentes, me contou que tem esse ofício faz uns cinco anos, quando se formou técnico em documentação odontológica. Conta que vibra a cada clique que faz. Gargalha quando fala. Brinco que estou me sentindo fichada para a polícia. Ele diz que é mais ou menos isso que faz. E gargalha de novo.
 
Antônio aparenta ter uns 30 anos. Cabelos e barba bem escuros emolduram o rosto risonho, dentes meio escurecidos para quem tem esse tipo de trabalho, penso. Tem um brinco prateado, minúsculo, na orelha esquerda.
 
É noivo – pelo menos usa uma aliança na mão direita. Mas não ouso perguntar nada. Nem tenho chance. Só ele fala, me dá ordens e faz tudo ligeirinho, dando alguns pulinhos no chão assepticamente branco da clínica. Parece animado.
 
Sem que eu pergunte, diz que chega às 8 e sai às 17 horas. No sábado fica até 12 horas. E estranha quando encerra o trabalho, conta que sente falta.

— Você não acha que aqui parece um outro mundo?
 
Concordo com ele.
 
A clínica, que se localiza na Avenida Santo Amaro, é uma construção branca e totalmente isolada da rua por muros altos e porta automática, hermeticamente fechada. Não há janelas para a avenida.
 
Na recepção, o ar condicionado fica ligado o dia inteiro, as luzes idem, pois não há ventilação natural. O mesmo acontece em todas as salas da clínica. Do contrário, o barulho da avenida não permitiria a Antônio orientar os clientes.
 
— E você gosta de trabalhar aqui, pelo jeito.
 
— Sim, adoro o que faço, graças a Deus. Não é lindo tirar fotos de dentes assim?
 
Acho graça no jeito que ele leva seu ofício, aparentemente com tanta leveza. Um ofício nada fácil – tira e coloca suportes das bocas das pessoas, para mantê-las mais ou menos abertas, conforme a foto solicitada pelo profissional dentista.
 
Fico pensando se alguém de repente não se irrita e morde a mão de Antônio. Pergunto isso a ele quando dá uma folga. Ele ri. Fala que isso nunca aconteceu, mas que pode ser que um dia aconteça.
 
Confessa que seu receio é de que alguém, com ânsia de vômito, por conta de tanta aparelhagem na boca, chegue às vias de fato qualquer dia. E diz que trabalhar com homem é mais difícil do que com mulher.
 
— Vocês são muito mais pacientes, não tem nem comparação, nossa! Homem não agüenta nem a metade. Outro dia veio um aqui que quase chorou.
 
Enquanto fala, Antônio enfia umas tralhas na minha boca. Sinto náusea, mas me mantenho firme. Ele percebe, diz para eu respirar fundo, bem fundo. Passou.
 
                                   ……………………………. 

 

— Tá tudo ok, viu? Pode ir embora, na semana que vem você vem buscar, né?
 
— Isso, pode deixar. Obrigada, Antônio.
 
— Obrigada a você! Ficou lindo o trabalho, você vai gostar. Saltita mais um pouco, sorri.

A recepcionista libera a porta automática, pesada. Saio no barulho e na poluição da Santo Amaro e vou caminhando até em casa, apressada, suada, mas me divertindo por dentro por ter conhecido alguém que vibra tanto por tirar fotos de dentes (quase sempre tortos e feios) dos outros.
 
Não é engraçado? Jamais imaginei que fosse conhecer um tipo assim. E por isso, acho, Antônio merece um breve registro neste Narravidas.

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