Por SILVIA NOARA PALADINO

Ao longo do trajeto de cerca de três horas até Chiang Rai, província localizada no extremo Norte da Tailândia, o cenário rural, ilustrado por plantações de arroz, montanhas e uma simplicidade singela das populações locais, preencheu a paisagem de praticamente todos os quilômetros percorridos pela van. Dentro do veículo, dois casais de italianos que viajavam juntos agiram naturalmente e sem espanto ao encontrar mais dois conterrâneos – uma reação que confirmou a minha teoria de que eles estão por toda a parte do território tailandês. Apenas um deles, sentado ao meu lado esquerdo, falava inglês. Assim, ele se encarregava de traduzir as explicações do nosso guia – o Chan, “como o ator, o Jackie Chan”, dizia ele –, em voz alta, ao ponto de fazer doer os meus ouvidos, aos demais companheiros. Como são barulhentos esses italianos!

Já ao meu lado direito, um homem com seus quarenta e poucos anos, olhos bem puxados, dentes que, de tão largos, chegavam a saltar para a frente, cabelos ralos e óculos de armação grossa e preta não dava pistas de sua nacionalidade. Em um primeiro momento, a sua figura nada familiar ou moderna me despertou até uma certa estranheza, que dificultava uma observação mais discreta do sujeito. Mas ele pareceu nem perceber. Com um inglês impecável, fazia uma pergunta atrás da outra sobre as curiosidades locais ao Chan, que, por sua vez, encontrava de forma atrapalhada as palavras corretas – ou não, muitas vezes – para respondê-las. “Parecem que eles são felizes aqui, você não acha?”, perguntou-me, com um sorriso amigável, o curioso viajante.

Rolland nasceu em Manila, capital e maior cidade das Filipinas, mas vive nos Estados Unidos, especificamente na Califórnia, desde criança. Sua atividade principal é lecionar inglês a crianças cujos pais se encontram em situação ilegal no território norte-americano. Sempre que pode, percorre o mundo a fim de ter algo a mais a transmitir a seus alunos, e deseja que, um dia, esses mesmos jovens tenham também a oportunidade de observar outras culturas, com seus próprios olhos. “Tenho vontade de conhecer a América do Sul, mas é muito perto”, brinca ele, ao descobrir que sou brasileira. De conversa fácil e disposição para contar suas histórias durante horas, Rolland fala por nós dois, enquanto eu tento filtrar a sua voz entre as risadas espalhafatosas dos animados italianos.

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Estátua de Buda que marca o triângulo formado pelas regiões costeiras da Tailândia, Mianmar e Laos

Nossa primeira parada, já em Chiang Rai, foi no chamado Golden Triangle, local onde as bordas dos territórios da Tailândia, Laos e Mianmar encontram o rio Mekhong, que corre para o Rio Mae Khong. Uma imagem gigante e dourada de Buda pode ser avistada dos três países. Pagamos seiscentos baths (cerca de dezoito dólares) para atravessar o rio de barco, em direção a uma ilha pertencente a Laos. O grupo se divide em duas embarcações, com capacidade para transportar até quatro pessoas cada, e Chan faz questão que eu me sente logo na frente. Tentei ignorar a minha imaginação, ao pensar na possibilidade de que o barco, em uma velocidade que fazia meus dentes se chocarem nos trancos mais violentos, virasse nas águas turvas do rio.

Embora o visto para turista seja uma exigência de Laos, a entrada é livre na ilha em que desembarcamos. A única condição responde pelo pagamento de vinte baths (o equivalente a menos de um dólar) no quiosque de madeira onde está erguia uma bandeira já desbotada da nação. Ao redor, o nada, com exceção de uma pequena vila e um modesto comércio de souveniers exóticos, como garrafas do tradicional whisky de arroz produzido localmente. Dentro dos recipientes, animais como cobras e escorpiões. E, no verso, a etiqueta que informa: ‘Indicado para reumatismo e lombriga’.

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Tradicional whisky de arroz produzido no Laos (sim, as cobras são reais)

A idéia de estar em um ponto do mapa que muitas pessoas nunca terão conhecimento de sua existência não deixa meu pensamento até hoje. Mesmo agora, quando estou sentada em minha cama, com o notebook apoiado no colo e uma gripe que só não é mais forte do que a minha vontade de chegar ao fim de mais esse relato, contando minhas histórias a quem estiver disposto a conhecê-las. E a certeza óbvia de que eu não poderei ter o mesmo privilégio em relação a muitos outros pontos perdidos no mapa, simplesmente porque não há tempo suficiente na vida para isso, faz-me sentir o ser mais insignificante no mundo.

Os relatos sobre minha passagem por Chiang Rai ainda vão longe. Acompanhe a continuação dessa narrativa na próxima quinzena.

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