Por ANA PAULA DO REGO

“… Após todos esses anos esqueça tudo sobre as épocas ruins…”
(After all these years – Silvechair)

Quem vê Jorge agora não imagina o que ele passou. De olhar calmo, rosto corado, alegre, robusto e uma barriguinha saliente que começou a crescer gradativamente depois que as crises de ansiedade que o faziam vomitar a cada manhã, amenizaram.

Jorge foi mais uma das vitímas da Síndrome do Pânico, doença que ultimamente tem atingido pessoas de ambos os sexos e classes sociais, desde artistas de renome até pessoas comuns.

Cientificamente poderíamos explicar essa doença da seguinte forma: O cérebro produz substâncias chamadas neurotransmissores que são responsáveis pela comunicação entre os neurônios (células do sistema nervoso). Essa comunicação forma mensagens que irão determinar a execução de todas as tarefas físicas e mentais de nosso organismo (andar, pensar, etc). Um desequilíbrio na produção desses neurotransmissores leva algumas partes do cérebro a transmitir informações incorretas, fazendo com que o organismo desencadeie reações de alerta desnecessárias como se houvesse uma ameaça concreta, por isso a pessoa sente angústia e ansiedade extremada.

Para quem teve essa doença, as explicações científicas pouco importam. Jorge, por exemplo, quer a cada dia superar mais e mais essa fase ruim, construindo os degraus de uma escada que pacientemente o faz subir para uma vida ideal após sua cura.

O início, as crises, a cura

Bem humorado, às vezes Jorge solta uma piada no meio da conversa, tem o hábito de se empolgar enquanto fala e seus olhos verdes brilham ao contar sobre o que já passou. Com 29 anos e alguns cabelos brancos despontando precocemente relata o que, para ele, foram tempos difíceis.

“Vejo a minha síndrome do pânico como o fruto e o desenrolar de uma personalidade medrosa, insegura e pouco confiante em si própria. A partir desse ponto de vista, eu poderia dizer que o início foi quando eu nasci, no dia 02 de Junho de 1978. Meus pais sempre contaram que eu fui um bebê muitíssimo sensível, não quero culpá-los, mas sou o primogênito e na ignorância de pais de primeira viagem eles acabaram por reforçar essa sensibilidade extrema, ao invés de desmistificá-la ao longo do meu crescimento. Um exemplo concreto, quando andávamos de carro minha mãe costumava tampar meus ouvidos com suas mãos, porque, segundo ela, eu estremecia com qualquer ruído mais intenso, como um motor de caminhão passando ao nosso lado, por exemplo”.

Conforme os anos foram passando e Jorge ia crescendo, evidentemente a vida o levou a constantes mudanças, a primeira delas foi a mudança de colégio, aos 15 anos, o que acarretou alguns acessos de tontura e vômito que o levaram a vários médicos e exames que nunca deram em nada. Anos mais tarde as crises voltariam mais intensas, precisamente em 2003, um ano após Jorge terminar a faculdade de psicologia, seu irmão também começa a trabalhar e esses pequenos nuances em sua vida o levaram ao fundo do poço, ele nem imaginaria que a pior crise que teve seria aquela que começaria a salvar a sua vida, pois seu tio, também psicólogo, vendo-o debilitado, indicou a ida a um psiquiatra que finalmente diagnostica a Síndrome do Pânico e receita um remédio novo no mercado cujo princípio ativo é o Escitalopram que é anti depressivo e ansiolítico.

Jorge já fazia terapia há um ano, pois como aluno de psicologia sentia necessidade dessa experiência, mas para que ele começasse a se curar com o remédio e chegasse a ponto de procurar um psiquiatra, as crises que fazem o paciente ter medo de enlouquecer, tamanho é o desespero e a intensidade, tiveram que ser maiores que o orgulho de não admitir ter essa doença.

“… Costumo usar uma metáfora para fazer as pessoas entenderem o que se passava comigo numa crise: imagine-se amarrado no trilho de um trem. Agora imagine o trem vindo ao longe; você ouve o ruído característico do trem percorrendo os trilhos. Sente até mesmo o chão vibrando. O trem se aproxima cada vez mais, até chegar a poucos centímetros de distância de você. Congele a cena nesse momento, um milésimo de segundo antes do trem lhe atropelar: eis as minhas sensações na hora da crise”.

Nesses momentos, Jorge não estava sozinho, seu sofrimento era amenizado quando escutava as músicas de sua banda favorita Silverchair, cuja identificação com o vocalista Daniel Johns era evidente, pois o mesmo sofreu de síndrome do pânico e relatava suas sensações nas letras de suas músicas.

“… olhos distorcidos quando tudo está claramente morrendo…”

(Emotion Sickness – Silverchair)

“Identifico-me com esse trecho porque durante a crise, todos os meus sentidos ficavam alterados, especialmente a visão. As cores e as formas mudavam, tornavam-se mais exarcebadas, ameaçadoras, distorcidas, opacas e confusas. O “tudo está claramente morrendo” também tem a ver com o fato de, durante a crise, tudo perder o sentido e o valor. Mesmo as coisas que nos períodos sem crise eram – e ainda são – motivação para eu viver e lutar pela felicidade.”
“… viciado sem heroína…”
(idem)

… Os sentidos ficam tão alterados que eu tinha a sensação de ter usado drogas, mesmo nunca tendo usado-as de fato…”

Para algumas pessoas que são vítimas dessa doença parece ser impossível determinar o início, o meio e o fim das crises, mas para Jorge o ato de vomitar era o ápice e também o início da melhora.

“Sempre havia um momento em que a crise e suas sensações chegavam ao que parecia ser o meu limite de tolerância. Era o meio, o ápice da crise. Nesse momento era inevitável vomitar. Após o vômito, a crise cessava rapidamente. Às vezes quase instantaneamente. Só em algumas crises – as piores – o vômito não fez o mal estar cessar.”

Hoje, ao olhar para trás Jorge sente que o pior já passou mas tem ainda um longo caminho a percorrer, superar um trauma que, querendo ou não, se instalou e que o impede de fazer algumas coisas como, por exemplo, sair de manhã, freqüentar lugares cheios, enfim coisas que para qualquer pessoa seria normal, mas para ele ainda são um desafio.

“Não existe uma cura definitiva, principalmente a partir da perspectiva de tudo o que me aconteceu. Se essa doença foi o fruto da minha constituição psíquica eu teria que me curar da minha própria personalidade para me considerar curado da síndrome do pânico. E isso nós sabemos que é impossível. Ninguém se cura de si mesmo. O ser humano aprende, isso sim, a conviver consigo mesmo, e essa é a maior expectativa que tenho para o futuro: aprender a conviver com aquilo que eu sou e aceitar a realidade como ela é. Só assim terei condições para mudar o que eu não gosto em mim.”

Jorge se sente mais confiante para enfrentar o que vier pela frente, é um “gato escaldado” que quer se realizar profissionalmente e emocionalmente, quer seguir a sua vida e chegar ao topo dessa escada que vem construindo e se sentir como uma pessoa comum.

“Hoje sinto, fundamentalmente, confiança. Tenho um certo medo de voltar a passar por todo esse inferno, mas sei que, se isso acontecer, tenho meios para lidar com o problema. Se eu sobrevivi uma vez, posso sobreviver outra”.

* O nome do personagem foi trocado para preservar a sua identidade

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