Introdução

Gabriel García Márquez há muito me cerca de respostas por todos os lados. Seus livros já me influenciaram tanto que chego a não saber se são causa ou conseqüência da minha paixão e insistência quanto à temática latino-americana. E não somente pela temática recorrente do autor, mas também por sua abordagem e estilo. Durante a busca por minha identidade jornalístico-literária, Gabo surgiu diversas vezes, como um profeta a me revelar caminhos possíveis entre a política e a poesia, entre real e fantástico, entre jornalismo e literatura. Era o que eu buscava.

Foi assim, lendo García Márquez, que descobri a voz narrativa em uma de minhas últimas reportagens, por exemplo. Enquanto eu procurava o narrador adequado para a contar a história de um refugiado colombiano, surge em minhas mãos – não por acaso – A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile. O livro me deu a resposta de que eu precisava: o narrador nem sempre precisa ser “visto”. Ele pode estar lá, mas não precisa necessariamente aparecer. Neste caso, o próprio protagonista da narrativa, que me contou a história pela primeira vez, poderia contá-la novamente, com a intervenção mínima do narrador.

Foi assim que nasceu a História de um Refúgio, repleta de declarações do personagem central, em tom de testemunho. E também assim nasceu a idéia deste ensaio, em que pretendo examinar a voz narrativa em primeira pessoa nas obras Relato de um Náufrago e A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, ambas de García Márquez.

A importância que o autor reconhece na América Latina, com todos os contrastes que ela abarca, também foi um ponto de convergência entre meus interesses e seu trabalho literário. García Márquez eliminou a sensação de fronteiras ou divisas quanto à América Latina, como ele mesmo disse durante uma entrevista: “Tenho consciência das diferenças existentes de um país para outro, mas na minha mente e em meu coração é tudo a mesma coisa”. E com esta abordagem, Gabo se revelou um jornalista essencialmente latino-americano, que viajou pela região e escreveu reportagens extremamente relevantes sobre Cuba, Argentina, Chile, Nicarágua e México, entre outros países.

E não somente suas obras jornalísticas, mas também as ficcionais, retratam e revelam a alma latino-americana. O estilo que Gabo empresta à sua obra mais conhecida, Cem Anos de Solidão, mistura o cotidiano e o fantástico em um mesmo espaço literário. E ele o faz de um modo quase natural, pois sabe que não está criando algo absolutamente novo. Esta visão da realidade, em que o mágico e o corriqueiro coexistem, são produtos da própria latinidade. Gabo disse que a história dos Buendía poderia ser interpretada como uma versão da história da América Latina. Segundo ele, ambos são constituídos por uma soma de esforços desmedidos e inúteis e por dramas condenados de antemão ao esquecimento. Na obra, com o passar do tempo, ninguém reconhece como verdadeiro o massacre dos trabalhadores da companhia bananeira, ou se lembra do Coronel Aureliano Buendía.

Um jornalista literário para a América Latina

No começo dos anos 60, uma curiosa idéia nova começou a se insinuar nos estreitos limites da statusfera das reportagens especiais. Essa descoberta, de início modesta, na verdade reverencial, poderíamos dizer, era que talvez fosse possível escrever jornalismo para ser… lido como um romance.

Neste trecho de Radical Chique e o Novo Jornalismo, Tom Wolfe narra o surgimento do new jornalism norte-americano, com a consciência de quem vivenciou e co-inaugurou esta nova ordem jornalístico-literária.

A década de 60 foi a data oficial de “batismo” do jornalismo literário, ou quando convencionou-se chamá-lo como tal e reconhecê-lo – ainda que em meio a toneladas de críticas – enquanto gênero jornalístico. Entretanto, algum tempo antes, em 1955, um jovem de 23 anos havia escrito e publicado a história de um marinheiro, membro da tripulação de um destróier da Marinha de Guerra colombiana, que sobrevivera ao naufrágio deste navio, após passar mais de dez dias à deriva em alto mar. Esta história foi publicada em 14 capítulos, pelo jornal El Espectador, de Bogotá, e por duas semanas estes jornais venderam como bananas. Poucos sabiam, mas o jornalismo literário dava mostras de seu potencial, atraindo leitores ávidos por narrativas reais, antes mesmo de ganhar um nome.

Para Tom Wolfe, o que tornou este novo jornalismo tão absorvente e fascinante quanto o romance e o conto são alguns recursos realistas, subjacentes à qualidade de envolvimento emocional dos mais potentes textos em prosa, sejam eles de ficção ou não-ficção. E é justamente a presença destes recursos o que me permite afirmar que Gabo é um dos precursores da narrativa de não-ficção na América Latina. É ele próprio quem reconhece, apesar de sua preferência pela ficção: “O romance nada faz que o jornalismo não possa fazer. As fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os recursos e a linguagem são os mesmos”. Para ele, ficção e não-ficção são feitos da mesma matéria: a realidade.

A falta de medida, o fantástico, o inacreditável fazem parte da realidade que vivenciamos. Isto fica especialmente evidente para nós, latino-americanos. Assim como na ficção, nossa realidade também é desmedida, e freqüentemente carecemos de palavras para descrevê-la. Não é raro, nos romances ficcionais de Gabriel Garcia Márquez, nos depararmos com passagens incríveis que foram descaradamente inspiradas na realidade.

Um dos maiores méritos de García Márquez foi trazer esta abordagem, costumeiramente classificada como “Realismo Mágico”, para o fazer jornalístico. Assim como em seus romances, ele busca mostrar em suas reportagens que a realidade pode ser incrível, como no caso de um truque inteligente e audacioso aplicado ao governo ditatorial do Chile, relatado em A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, ou como a proeza de sobreviver a mais de dez dias em alto mar, como em Relato de um Náufrago.

O autor destas obras afirma ser considerado um jornalista “literário demais” e, por outro lado, um escritor “demasiadamente jornalístico”. O que parecia ser uma contradição, facilmente torna-se mérito. É isto o que faz com que Gabo busque ser verdadeiro, mesmo quando está fazendo ficção, e que procure ser um poeta, mesmo quando faz jornalismo. Em meio a este paradoxo, ele cria e recria o jornalismo literário.

O resultado desta mistura são obras de extrema profundidade, em que o personagem real e o personagem literário não são apenas indivíduos, mas são também espelhos da sociedade. Não são espelhos realistas, porque seus personagens não se pretendem simbólicos. Entretanto, refletem a sociedade ao evidenciar suas deformidades, seus paradoxos, seus absurdos.

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