Por WAGNER HILÁRIO

– Olha, o sol acendeu, papai!

– Tá se pondo…

Fica laranja quando se põe e sua luz se torna menos intensa que sua silhueta. O horizonte se tinge de violeta e lava, enquanto o topo do céu já está roxo. O tapete marinho facilita a fotografia do fim de tarde, e eu concluo que a beleza está entre a luz e a escuridão, entre o dia e a noite, entre o homem e a mulher, entre yin e yang.

O encontro da luz
com as trevas:
fio de contrastes
sobre o qual
se deve equilibrar.

– O amor é um jogo em que o empate é a vitória… Já te disse isso?

– Não – ela me responde.

– Então, é uma relação de equilíbrio. Quando deixa de existir equilíbrio, quando um dos amantes “ganha”, o amor acaba.

– Faz sentido.

É como o tango, o amor…

Tango que assisto ao lado dela, numa noite qualquer. Os dançarinos enroscam as pernas no palco, como se quisessem se derrubar. Mas se o fizerem o espetáculo acaba, e os aplausos não nascem, como deveria acontecer. A dançarina se debruça sobre o dançarino, suave e sedutora, sem deixar de ser agressiva. Ele a suporta, vigoroso e viril, sem perder a gentileza. No fim, olham-se apaixonados, mas deixam o beijo para os bastidores.

– Ainda bem que a gente gosta das mesmas coisas – ela me diz.

Ainda bem que há amor. Do contrário, não haveria força para caminharmos a distância que o mundo se incube de esticar entre nós… Do contrário, não veríamos sol na vida que concebemos e que nos ajuda a “acender” para o equilíbrio, a cada nascente e a cada poente.

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