Por ANDRÉ KAMEDA

“Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palito
E um cigarro pra espantar mosquito”

Conversa de Botequim – Noel Rosa

— Aceita um chope?
— Não, obrigado.

Admito: não gosto de bares onde o controle do que se bebe é feito pela recusa, e não por vontade própria. Isso causa desconforto aos clientes e já mostra um pouco o espírito do lugar. Pois bem. Dia desses, estava com amigos num bar onde se costuma adotar esse tipo de procedimento. Estávamos comemorando na ocasião a entrada de um deles num jornal.

— Vai um chope?
— Ainda não, obrigado.

Era chato ter de falar “não” a toda hora, e um “não” dito repetidas vezes poderia soar mal educado. Por isso que, de vez em quando, dizíamos sim, apenas para sermos mais gentis. Então, do excedente de nossa gentileza, o dono do bar extraía seu Santo Lucro da noite.

— Mais um chope?
— Ôpa, pode descer.

Apesar da decoração meio afetada, querendo ser tradicional e moderno ao mesmo tempo, todo mundo no bar estava se dando soberanamente bem. Ninguém se ocupou em cometer o farisaísmo do bom comportamento. Ali as atitudes gratuitas, despojadas de qualquer interesse, eram os bens mais valorizados. Genial mesmo era a pintura de uma das paredes. Nela, estavam Nelson Cavaquinho e seus convivas, numa mesa; e Albert Einstein e seus pares, em outra. Se vivos fossem, e se lá estivessem, certamente eu me sentaria na mesa do Nelson, pois não me agradaria ouvir como resposta às minhas dúvidas existenciais um “tudo é relativo”.

— Mais um chope?
— Lógico.

Porque o bar é o espaço onde todos devem se tratar por iguais, ainda que sejam diferentes. Talvez seja mesmo o último reduto urbano de liberdade, nesta vida sufocada pelas exigências cotidianas. Ali o tempo se suspende e se pratica a anarquia saudável, embora digam que saúde não combina lá muito com bar. Pois eu discordo: o botequim é o lugar onde as pessoas vão em busca da sanidade mental, neste mundo cada vez mais louco e sem sentido. É o lugar da troca de experiências, do encontro sem compromisso, da reunião sem pauta. Essa a sua função: já que a vida anda tão sem sentido, devemos nos encontrar para tentar buscar algum para ela – mesmo sabendo que, no fim, não vamos achá-lo.

— Vai um chope?
— Por favor.

Mas tem sempre algo à espreita, pronto para acabar com a noite. Quando as pessoas começaram a debandar, porque a noite já ia alta, um dos garçons veio implicar que estávamos escondendo bolachas (aqueles apoios de copo), numa tentativa de reduzir a conta. Explico: eles contabilizam o número de chopes bebidos pelas tais bolachas. O pior de tudo é que o garçom veio acusar justamente a pessoa que não tinha sequer bebido um copo de chope. E depois, veio também me acusar: disse que eu estava escondendo as bolachas num gorro. Reconheço que estava guardando as minhas, mas apenas para separá-las das dos outros. Prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Além disso, eu já tinha conversado com ele e fizemos o pacto de que iria colocar as minhas bolachas sob um guardanapo, com o meu nome escrito nele.

— Mais um chope?
— Agora não.

Senti-me traído, ultrajado. Queriam que assumíssemos o suposto roubo. Ora, se estavam nos acusando, que provassem, estávamos lá à disposição. Pagar pelo que não consumimos é que não íamos. Cogitamos até de ir à delegacia, mas um outro garçom resolveu botar panos quentes e acalmar os ânimos. No fim, descobrimos que eles tinham outro controle no caixa, menos rudimentar do que esse de contar os chopes pelas bolachas. Não conseguimos saber por que raios fizeram tanto fuzuê. Ainda nos ofereceram uma rodada de chopes, como desculpas pelo mal-entendido. Engolimos com um travo amargo e seguimos para outro bar. Algum que entendesse que o espírito do botequim é a união, e não o conflito.

— Fecha a conta, por favor.

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