Por FRED LINARDI

Puta que pariu, pensei, gritando em voz baixa ao olhar o resultado da busca no Google. Não havia dúvidas, eu não tinha digitado o nome errado. A ferramenta sequer havia sugerido algo como “você quis dizer…”. Ao mesmo tempo em que me gelou o estômago, eu tive a certeza de que…

Horas atrás eu descia a rua Haddock Lobo, do lado, digamos, do lado oposto à região dos Jardins. Já estava há três quarteirões da Avenida Paulista e faltavam dois para chegar em casa. Pouco antes de dobrar a esquina da Haddock com a Matias Aires, um rapaz de cara assustada, expressões que beiravam a fronteira do desespero e da timidez, hesitante, parou e perguntou se eu falava inglês.

Voltei-me a sua direção e pude reparar: magro, cabelos claros e curtos, olhos azuis, roupa em tons pastéis e casuais. Tudo isso, no entanto, ficou ainda mais apagado diante da sua situação.

“Yep” respondi, aguardando a provável pergunta sobre direções de ruas ou algo do tipo.

“Really?! Oh thank God!”

Agradecendo aos céus, just like Americans do, o americano explicou seu drama, em um inglês tão perfeito quanto aos de diplomatas americanos. “Não conheço muito a cidade, pois moro aqui há pouco tempo. Sou professor de literatura na Graded School, no Morumbi, e vim comprar livros num lugar chamado Fnac. Quando estava saindo, alguns menores me abordaram na calçada, tinham armas apontadas para mim, e me levaram tudo.”

“That´s so embarrassing…”, ele dizia e repetia o tempo todo.

“Sem problemas”, eu respondi. “Sinto muito por ter acontecido isso com você…”

O americano, no entanto, mostrou-se conformado. “Big cities…”. O que não se conformava, explicou, é que depois de ter ido fazer a ocorrência na polícia, os policiais haviam-lhe negado uma carona até sua casa “na Rua Portugal, in Brooklin”. “Eles foram atenciosos comigo, me trataram bem, mas disseram que não poderiam fazer esse serviço até o Brooklin”.

“Deve ter sido por causa das típicas regras que eles têm”, respondi.

“Anyway. Vim de casa até a Paulista Avenue de táxi e me custou doze Reais. Então… oh, that´s so embarrasing! Mas eu preciso de dinheiro para voltar para casa. Não conheço nada por aqui. Só posso te dar a certeza de que amanhã a secretária da minha escola entrará em contato com você para te ressarcir. Apenas me mande um e-mail com o número da sua conta e eu repasso para ela”.

Após dizer seu nome completo, Mike Austin, e seu e-mail, agradeceu-me enfaticamente, de novo, just like Americans do, elogiou meu inglês.

“Oh, Austin, like “Austin” from Austin Powers?”, perguntei.

“Yes. Or Austin, like the capital of Texas”, certificando-me que eu havia entendido.

Voltei para casa com um peso na consciência. Imaginei o desespero de Mike ao ser assaltado em terras desconhecidas. O peso se deu principalmente por eu ter dado apenas dez reais, imaginando que já seria o suficiente para que ele pagasse a corrida e, ao chegar em casa, são e salvo, poderia pagar ao taxista os trocados que, por ventura, faltasse.

Antes de mandar o e-mail para o Mike, resolvi usar o Google, para ver se caía na escola e se encontrava contatos mais diretos. No primeiro resultado da lista, porém, um texto que denunciava o que acontecera há dez minutos. Era um depoimento de alguém que, exatamente como eu, havia caído no conto do Mike Austin. Nem me dei ao trabalho para conferir o e-mail que o golpista havia passado.

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