Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

– Quando eu entrei na casa do cônsul da Grécia, percebi que era o único brasileiro no meio de vários estrangeiros, a maioria diplomatas. O que eu, um médico, estaria fazendo ali? Os lugares para o jantar estavam demarcados e vi que a mim cabia a cabeceira da mesa. Quando sentei, totalmente sem jeito, fui citado pelo cônsul como o brasileiro que mais se empenhou até hoje para divulgar seu país. Fui aplaudido de pé por todos. Só então percebi que aquele era um jantar feito especialmente em minha homenagem.

– Nossa, que emocionante deve ter sido.

Os olhos amarelados daquele homem tornaram-se repentinamente vermelhos e deles transbordaram lágrimas sinceras, cheias de emoção.

Ele desviou o olhar para a vidraça do 21º andar de seu apartamento no Morumbi, pomposamente decorado como um apartamento de uma velha e elegante senhora.

– Sim, foi muito emocionante mesmo. Nunca tinha me sentido assim.

Foi aí então que vi minha antipatia por ele começar a se desmanchar. Até aquele exato momento, estar diante daquele homem obcecado pela Grécia só tinha me deixado irritada. Detesto gente com manias e obsessões. E Hélio Martins (*) é exatamente assim, segundo sua própria definição.

– Quando gosto de uma coisa, vou até o fim, radicalizo. Hoje respiro a Grécia.

– Por que você ainda não se mudou para lá?

– Claro que já pensei muito nisso, mas não tive coragem de largar minha carreira aqui ainda. Quem sabe um dia faço isso.

Aos 56 anos, partindo para o quarto casamento, Hélio nunca quis ter filhos. Eles atrapalhariam seus planos de correr o mundo, sua razão de viver. Desde pequeno já era apaixonado por viajar – na infância, foi várias vezes para o Canadá e Chile, onde tinha familiares.

Já adolescente, descobriu a Europa.

– Mas nunca fui de ir passar por um país. Escolhia um por vez, alugava um carro, e percorria todos os seus lugarejos. Na França e na Espanha, por exemplo, não deve ter uma esquina desconhecida pra mim.

Olho a mobília do apartamento, examino a xícara do café que ele me serviu, vejo a sala que se estende para além do living, e observo o amplo terraço cheio de plantas, a saleta de som repleta de equipamentos, CDs e DVDs.

Ele só pode ter muita grana de família – não é possível que ganha tanto dinheiro exercendo a medicina em seu consultório sem luxo algum, no centro de São Paulo.

Seu pai, me conta, era um comerciante do Brás. Penso que enriqueceu e que talvez Hélio tenha herdado uma polpuda herança. Será que é filho único? Imagino que sim, e me conformo, talvez.

Em 1990, se encantou pela Grécia e para lá volta pelo menos duas vezes por ano.

Quando eu pergunto sobre seus casamentos, ele se emociona também. Mas só faz menção especial à sua segunda companheira. 

– Ela gostava tanto quanto eu no início, fizemos até planos de ir morar lá, aprendemos juntos o idioma. Depois que separamos, até onde eu sei, ela nunca mais voltou para lá e abandonou tudo o que aprendeu no país. Sei que ela rompeu comigo porque não agüentou tanta obsessão.

Faço uma pausa na conversa, deixo meus pensamentos se aprumarem. Estou um pouco balançada, tendo de rever convicções que julgava consolidadas. Não é fácil. Sempre achei que para ser feliz bastava viajar, correr mundo, correr perigo quando bem entendesse, sem ter de dar satisfação para ninguém.

Para isso, claro, seria preciso dinheiro. Hélio parece ter de sobra. Mas não me parece feliz. Em nossa conversa sobre viagens definitivas, para uma reportagem a ser publicada numa revista médica, me vi diante de um homem amargurado, olhos cansados, sem brilho, voz apagada. Mas apaixonado pela Grécia, por viagens, tenta me convencer.

Sua verdadeira essência, sua razão de viver, no entanto, não me pareceu estar na Grécia, mas sim nos amigos que conquistou a partir dessa descoberta. Também me angustiei com a idéia de que alguém, com tanto dinheiro e tempo livre, resolva ir duas vezes por ano ao mesmo país há quase 20 anos.

– Você conhece bem o Brasil?

– Não. Estive no Nordeste uma vez, há mais de 30 anos. O litoral norte de São Paulo eu não vou há mais de 10 anos.

– Não tem vontade de conhecer mais coisas aqui?

– Não. 

– O que mais te chama atenção na Grécia, fora a natureza, a história?

Ele se ajeita na cadeira. Diz que é difícil falar disso. De novo, seus olhos ficam umedecidos.

– O povo grego é culto e muito simples ao mesmo tempo. Você não sabe diferenciar na rua quem é pobre, quem é rico. 

Nossa conversa chega ao fim, ele parece um pouco apressado. Lá fora o sábado está ensolarado. Hélio me conta que vai esperar a namorada chegar, no fim da tarde, para assistir a um jogo do Palmeiras, uma outra paixão sua.

– Saio muito pouco aqui em São Paulo, detesto multidão. Na Grécia, em compensação, viro noites dançando em plena segunda-feira. Acho que os gregos são muito verdadeiros – quando gostam de alguém, é pra valer, sem essa superficialidade típica do brasileiro. Lá descobri minha verdadeira identidade.

E me sorri um sorriso amarelo de despedida, no mesmo tom de seus olhos.

– Você precisa conhecer a Grécia. Todo mundo precisa.

Retribuo o sorriso, entro no elevador, ajeito o cabelo no espelho e digo alto, fazendo uma careta: “Será que eu preciso mesmo conhecer a Grécia?”

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