Por SILVIA NOARA PALADINO 

longneck.jpg

Tribo Long Neck Karen, região de Mae Hong Son,

em Chiang Rai (Norte da Tailândia). 

Já passavam das duas da tarde quando deixamos o Laos para retornarmos ao território tailandês, do outro lado do rio, onde Chan, nosso guia, nos aguardava.

Quem está com fome? – , perguntou ele, enquanto eu me livrava do calor do colete salva-vidas e olhava para trás, pensando se, algum dia, eu voltaria ali novamente.

Os italianos ainda tiravam suas últimas fotos da fronteira e, assim, atrasavam toda a programação do grupo. Mais uma vez, a sensação de queda de pressão. Rolland, o professor que nasceu nas Filipinas e vive nos Estados Unidos, aproximou-se de mim, na única sombra que consegui encontrar, e Chan juntou-se a nós, para averiguar se todos estavam bem. Procurei não me animar demais com o anúncio da chegada do almoço. Com muita sorte, teria uma refeição mais adaptada aos hábitos ocidentais, ainda que feita por mãos tailandesas. Em outras palavras, comida sem pimenta.

Em vinte minutos de carro, alcançamos um restaurante de beira de estrada e acostumado a receber turistas. Pelo menos um garçom falava palavras-chave em inglês, o que já era acima do comum. Apesar de conhecida com um destino exótico de viagem, a Tailândia não é o que pode se chamar de pólo turístico. Com exceção de ilhas como Pucket e Krabi, o Norte do País, especialmente, entrou para o alvo de viajantes quando se percebeu que a modernização de Bangkok ainda era uma realidade distante dos costumes locais.

Silvia, venha cá experimentar isso aqui! -, diz Chan, pronunciando perfeitamente meu nome, ao tentar me introduzir às maravilhas da culinária tailandesa, colocadas sobre uma mesa separada, ao lado de uma pequena etiqueta com o aviso: Spicy food”.

Salada de alface e tomate, arroz branco, legumes cozidos, frango frito, peixe ensopado e batata frita aparecem no cardápio comum. Os pratos podem ser familiares, mas o paladar não me deixa esquecer de que nada, nada por aqui terá o gosto de casa. Nem o melão, nem a goiaba. Rolland volta à mesa em que nos sentamos com o restante do grupo, animado ao encontrar uma iguaria feita à base de leite de côco.

Eles têm muito desse leite de côco por aqui, você deveria experimentar -, aconselha-me, ao pronunciar o ‘coconut milk’ pausadamente, como se apresentasse a uma criança um novo vocabulário.

Sorri. Levantei-me da mesa e fui para o lado de fora do restaurante, cansada do ar condicionado e a fim de ficar um pouco em silêncio, enquanto os italianos terminavam suas cervejas e atrasavam um pouco mais a programação. Não demorou muito para que Chan sentasse ao meu lado, na guia, sentindo que tinha espaço, comigo, para saber um pouco sobre um mundo que ele jamais teria a oportunidade de conhecer, assim como a maior parte dos tailandeses.

De baixa estatura, sorriso fácil e voz tranquila, Chan pareceu-me possuir todas as características que pude notar no povo tailandês. A começar pelo cuidado para não ser inconveniente, passando até por uma certa inocência das perguntas e pelo esforço em compreender o inglês mais melódico, que tanto contrasta com o ritmo de seu idioma. Ele me pergunta se costumo viajar para fora do País, assim, com frequência. Chan nunca esteve longe de casa, com exceção de Mianmá, a antiga Birmânia. Quer saber o que há para se fazer no Brasil, qual é a minha profissão, se é comum, de onde venho, uma mulher viajar sozinha, se sou solteira, se gosto de futebol – sim, a fama vai longe – e porque resolvi ir para a Tailândia. Senti-me feliz de poder levar a ele algumas respostas, embora, ainda que com perguntas, Chan tenha me dito muito mais do que eu poderia transmitir a ele.

Os italianos finalmente entram na van. A viagem continua por mais uma hora e, desta vez, em direção à tribo de Long Neck Karen – a vila das mulheres de pescoço comprido –, em Mae Hong Son. No caminho, Chan mostra um artigo científico sobre os mitos relacionados ao povoado. O principal deles diz respeito à ilusão visual de que os grandes anéis dourados esticam o pescoço das mulheres – o que, se fosse verdade, provocaria paralisia ou até mesmo morte. O que acontece, de fato, é o enfraquecimento da musculatura da região, por conta dos anos e anos inutilizada. Segundo a explicação mais comum, tal tradição é símbolo de beleza e saúde.

Na verdade, não importa o quanto eu tenha ouvido falar desse povoado de tradições tão únicas – e que alguns chamariam até de bizarras. O que gravei com meus próprios olhos não está escrito em nenhuma página de internet ou estudo antropológico. Caminho sobre a terra de grãos finos e entre tendas de bambu cobertas por palha, onde as mulheres de tribo confeccionam encharpes de todas as cores e desenhos. Flores e lenços amarrados aos cabelos escuros e lisos, pulseiras largas e coloridas, saias com estampas de flores, rostos levemente pintados e o sorriso mais amável do mundo formavam a imagem de cada uma delas, incluindo jovens meninas que, desde criança, exibem as argolas à volta do pescoço. ” One hundred baths!”, é o que elas sabem dizer em inglês, com voz delicada, ao apontarem os itens à venda aos turistas.

Levei alguns minutos para ter qualquer tipo de reação. Primeiro, a vontade incontrolável de chorar e chorar, diante de uma beleza que arranca o som das cordas vocais. Depois, uma certa revolta com os turistas europeus que pareciam estar diante de um zoológico humano. E, então, vem a curiosidade impulsiva de saber se aquelas mulheres são felizes, com o que elas sonham, o que entendem por amor e o que elas enxergam quando olham para mim. Um desejo que se torna frustração, quando penso que a única comunicação possível, entre nós, é o sorriso.

Elas parecem ser felizes aqui. Você não acha? – , pergunta-me Rolland, quando retornamos ao carro.

É verdade… -, respondo.

Essa foi uma das poucas coisas que eu disse durante todo o trajeto de volta a Chiang Mai. Rolland, por sua vez, encontrou no italiano sentado à minha esquerda uma nova companhia de viagem. Os dois conversaram durante as três horas de viagem, e não se importaram com a minha presença incomodada entre eles. Eu tentei abstrair o mal estar desesperador. O almoço não havia caído bem, definitivamente. Ao chegarmos ao meu hotel, despedi-me dos companheiros barulhentos de viagem, desejando bom retorno e boa sorte. É um pouco triste pensar como algumas pessoas têm passagem tão rápida por nossas vidas. Assim como Chan, que se despediu de mim com um aperto de mão forte e sincero. Adeus.

Leia a primeira parte dessa narrativa aqui.

Advertisements