Por ANA PAULA DO REGO

Não existem paredes externas nos três andares do prédio de concreto e imenso espaço verde. Amplas janelas fazem essa função e deixam entrar o sol da tarde nas salas onde os funcionários trabalham freneticamente. Dessas janelas pode-se ver uma pequena horta construída cuidadosamente pela empresa ao lado ou os ônibus fretados estacionados do lado de fora aguardando a hora de partir levando as pessoas embora.

Nessa empresa o clima sempre fora de cidade do interior, mesmo não sendo pequena, pois lidera o mercado no segmento de assistência 24 horas a veículos, residência e pessoas. Todos os funcionários se conheciam e se respeitavam profissionalmente.

Diferente da maioria das empresas de grande porte, esta não possuía qualquer ponto eletrônico que registrasse a entrada e saída de pessoas, o acesso era livre e o crachá não era obrigatório.

No grande refeitório, as pessoas acomodavam-se perfeitamente podendo escolher a dedo a mesa que iriam sentar e, silenciosamente ou conversando descontraidamente com os colegas, fariam suas refeições.

Por isso há dois meses atrás os funcionários se sentiram ameaçados e apreensivos quando souberam que a empresa seria comprada por uma outra, também de grande porte, multinacional, atuante no segmento de administração de planos de saúde e dentais. Todos sabiam que muitas mudanças iriam ocorrer, a estabilidade de muitos poderia ser abalada e o aparente sossego e liberdade que sentiam poderia estar com os seus dias contados.

Realmente as mudanças começaram, abruptamente. A primeira de todas foi a imigração dos funcionários da empresa nova para o prédio, mas para que isso acontecesse, paredes foram derrubadas e até então a aparente organização e requinte da antiga empresa foi dando espaço a uma nova cultura, salas imensas, recheadas de mesas e muitas cabeças, ora levantadas olhando pensativas para a tela do computador, ora abaixadas lendo, resolvendo problemas, reuniões feitas no meio do setor, um mar de gente visando lucros e produção.

De repente novos rostos foram aparecendo nos corredores, pessoas diferentes, mal se olham, mal se cumprimentam. Na mesa do “cafezinho”, os funcionários se servem juntos, mas não param para se conhecer.

No refeitório, fila na guarnição onde ficam as comidas, as mesas são divididas com pessoas desconhecidas, há muito falatório, há muita gente em pé aguardando desocupar alguma mesa para poder almoçar.

Uma porta de vidro na entrada principal da empresa foi arrancada, da noite para o dia, e ali surgiram catracas eletrônicas, obrigando a usar o crachá. Os funcionários que não estavam acostumados com essa obrigação se viram perdidos quando, ao entrar, não sabiam em qual catraca passar o crachá, foi uma confusão, muitos passaram na catraca de saída quando queriam entrar e vice-versa.

Uma funcionária que já trabalhava há 3 anos na empresa antiga disse, com ar de desmotivação perante esses acontecimentos:

– A sensação de ser promovida, a empresa maior, crescendo, superficialmente são coisas boas, mas a sensação é ruim…a mudança, mesmo quando é boa se torna estranha.

Na primeira semana do mês de Outubro, todos os funcionários antigos da empresa que fora comprada, assistiram perplexos amigos, colegas de trabalho de anos serem mandados embora.

Era final de tarde e em uma pequena sala de reuniões do 2º andar, o gerente da nova empresa chama, um por um, os funcionários que seriam demitidos. As pessoas eram pegas de surpresa, pois o critério não visava tempo de casa, função ou cargo, parecia que era necessário fazer aquilo logo, sem demora.

O funcionário entrava naquela sala e saia com um papel na mão, tentava demonstrar calma, apatia, mas no fundo todos sabiam que aquilo não era fácil e que iria demorar a ser digerido.

Um deles, já sabendo que foi chamado para a tal sala, se apressa em ligar para sua mãe:

– Tenho uma boa e uma má notícia. A boa é que já posso ir para a Itália…hã…há! essa é a má notícia…vou ser mandado embora!

Outro funcionário, gerente de um dos departamentos, um dos mais antigos da empresa que fora comprada, mais ou menos 8 anos de casa, também está indo embora. Famoso pelo seu jeito durão ao lidar com seus subordinados e por ser de poucas palavras, nessa hora a emoção falou mais alto, chamou os seus 25 funcionários em volta de sua mesa, com a voz embargada e com espaços entre uma frase e outra conseguiu dizer alguma coisa:

– Não vou falar muito…Também foi uma surpresa pra mim…Foi muito bom trabalhar com vocês!

Uma outra supervisora, do mesmo departamento, chega de um serviço externo e também recebe a notícia de sua demissão. Choro, abraços de despedida, mas nenhuma palavra.

O que fazer nessas horas? O que pensar?. No fundo, as mudanças acontecem, assim como se diz na música de Lulu Santos: “…tudo muda o tempo todo, no mundo, não adianta fugir…”, mas resta nos perguntarmos se estamos preparados para isso. Estamos preparados para enfrentar os desafios e as mudanças que ocorreram ou ainda vão ocorrer em nossas vidas?

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