Por LUCIANA NORONHA

Zé morava na Barra Funda, em frente ao metrô. Quer dizer, morava na entrada do metrô, em uma pracinha de onde surge a rampa de acesso ao terminal, pisoteada diariamente por milhares de passantes, indo e vindo o tempo todo. Tinha muitos amigos por ali, entre taxistas que tinham o local como ponto de partida e chegada, policiais que fazem a segurança do local e trabalhadores, como vendedores de passes de metrô, cachorro-quente e pães de queijo.

Tantos amigos podem ser explicados por seu carisma natural e seu focinho simpático, adornado por orelhas compridas que não se entendem: quando uma está dobrada, a outra está em pé, o que lhe confere uma fisionomia ao mesmo tempo desconfiada e curiosa. Seu corpinho magrelo e as costelas saltadas são camuflados por pelos compridos e finos. É branco e tem grandes manchas pretas espalhadas pelas costas e orelhas.

Seu círculo de amizades não era composto só por gente, mas também por outros cães, companheiros de longa data que viviam também ali, dividindo as mesmas dificuldades: noites de frio e de chuva, agressões gratuitas, pratos de comida deixados pelos taxistas, restos de esfirras ou um pão de queijo derrubado por descuido. Moleque e Negão eram seus amigos mais próximos.     

Mas chega o dia em que uma velha conhecida de Zé, moça simpática e engraçada, o enfia no banco de trás do carro e o leva pra morar com ela e o marido, na Aclimação. Seriam uma família. Adotado, Zé toma banho, e revela a brancura de seus pêlos, antes escondida pelo marrom encardido da rua. A moça compra pra Zé uma ração de boa qualidade, que ele estranha, provavelmente porque nunca havia experimentado prato tão refinado. Depois come e gosta. Vai então ao veterinário, ganha ossinhos, afagos e coleira. Mas parece que nada daquilo era o suficiente.

Os dias passam e Zé fica cada vez mais agoniado. Quando a moça e seu marido vão trabalhar, ele fica sozinho e se desespera, perdendo as tardes em tentativas de pular o muro da casa. Sem sucesso. Zé não se acostuma a viver entre paredes, ele quer a liberdade, os odores e a sujeira das ruas. Os passeios matinais e vespertinos não parecem ser suficientes. Quando a moça se dá conta da agonia de Zé, ela o coloca novamente no banco de trás do carro e o devolve à Barra Funda.

Mas ele tampouco se acostuma à vida de outrora. Quando a moça passa pela praça, ele vai atrás, seguindo-a até o trabalho, seguindo-a indefinidamente, seguindo-a até que ela perceba que ele quer mesmo é ir com ela. Zé podia até não saber disso, mas vivia um conflito interno, desses com os quais estamos acostumados. Por fim, ele volta para os braços de sua família, na Aclimação.

Disposto a encarar sua vida nova, Zé conforma-se com a solidão durante as tardes. Se acostuma com o incômodo dos banhos e dos remédios enfiados goela abaixo ou macerados junto à ração. Se acostuma até mesmo à coleira.

Enquanto isso, seu velho amigo Negão é capturado pela carrocinha e levado ao centro de zoonoses após morder um rapaz que veio com brincadeiras sem graça. A moça – sim, a mesma – resgata Negão de lá, livrando-o da execução sumária que viria dali a dois dias. Poucas semanas depois de retornar do Centro de Zoonoses, Negão morre por causas naturais. Alguma doença, ninguém sabe ao certo. Ele já era mesmo velhinho.  

Alheio ao destino de seu amigo, Zé aprende a sentar e a cumprimentar os conhecidos, erguendo educadamente a pata dianteira, e recebe ossinhos em troca. Ganha gravatinha, almofada pra dormir, brinquedo e até sapatinho – virou um cachorro de família, e se porta como tal. Já não aceita comer qualquer porcaria e late para estranhos, defendendo seu território.

Alguns dias atrás, a moça levou Zé para visitar sua antiga moradia, na Barra Funda. Lá estavam os taxistas, seus amigos, que o afagam e admiram seus pelos sedosos, recordando o cãozinho encardido do passado. E lá também estava Moleque, seu velho companheiro, simpático e sujinho como sempre!

Moleque reconhece Zé e balança o rabo pra ele, demonstrando contentamento em revê-lo após tanto tempo. Se aproxima para cheirá-lo, e afasta-se num pulo. Zé dispara a latir para Moleque, como se ele fosse qualquer vira-latas estranho por aí. Late enraivecido, e a moça precisa dar uma bronca em Zé. Moleque fica assustado. Sua fisionomia se altera, ele esconde o rabo entre as pernas e se afasta.     

ze12.jpg

Advertisements