Por WAGNER HILÁRIO

Foi a primeira vez que tomei uma dura daquelas do meu pai. Não me bateu. “É para isso que eu te coloco na escola, moleque?! Para brigar”… Ele é o cara do bom exemplo, sabe? Era o papel dele. Sei que no fundo ele era um menino briguento. Quando adolescente, ainda mais. Com um e noventa de altura, uma mão de pá, um braço de pedreiro, chegado em alteres e filho de lituano, certeza que gostava de quebrar um pau.

Mas, enfim, me deu uma bronca, furioso, porque eu tinha batido num moleque da minha idade. Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi contar a ele o meu ato de menino valente. Tomei a dura.

O cara com quem eu tretei tinha nove anos, mas era maloqueiro, mais vivido, era da Mooca. Tínhamos a mesma altura, talvez eu fosse um pouco mais forte. Mas ele era malandro, vivia na rua, não tinha pai nem mãe e era criado pelos avós, que com muito ralo pagavam a escola particular que a gente freqüentava, o Colégio São Miguel.

Agora não lembro por que brigamos. Ele queria me pegar, e eu estava me cagando de medo. Filho único, poucos amigos. Não tinha nenhum moleque na minha rua. Só o alemão, da escola mesmo, que era truta. Os caras tentaram me pegar antes, esse mesmo maloqueiro e um outro moleque maior e mais velho. O alemão me salvou. Mas o da minha idade, acho que chamava Rodrigo, queria me pegar ainda… Ah, lembrei. Queria me pegar porque eu tinha colocado um apelido nele. Eu tinha essa mania. Não lembro o apelido. Os caras me achavam folgado por isso, mas eu não era, era o maior bobão.

Enfim, o Rodrigo queria me pegar de qualquer jeito, mesmo depois de ter apanhado do alemão, ele e o amigo. Aí, o alemão conversou com ele e depois veio em mim e disse:

“Oh, Danilo, vai rolar e vai ser só ceis dois”.

“Mas eu não sei tretar, não!”.

“Ah, amigo! Se vira”.

Beleza, né? Ia fazer o quê? Fui na direção dele, fechei os olhos e dei o soco. Pegou! Pegou na boca. Eu fui para cima e só não rosnei porque não sou cachorro. Ele se desmanchou em medo, mano! O maloqueiro virou a criança que era. Eu também era criança, mas passei a ser mais respeitado. Ninguém mais mexia comigo.

Há uns cinco anos, encontrei esse Rodrigo numa padaria. Eu estava com minha namorada. Ele desandou mesmo, virou maloca de verdade. Ele não tem pele, tem tatuagem. Tem faca nos olhos, bicho. Quando me viu na padoca, lançou as facas pelos olhos e me cumprimentou, com seriedade. Senti que o cara me respeita ainda, cê vê? Às vezes é preciso agir assim, apesar da enrabada que levei do velho.

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