Por ANDRÉ KAMEDA

Domingo é sempre igual. Acordar depois do meio-dia, almoçar com a família, tarde em frente à TV, noite melancólica. No próximo, porém, vai ter uma coisa diferente. Não tão diferente assim, já que festas de crianças repetem-se, no mínimo, a cada dois meses.

A aniversariante em questão é a minha prima Gabriela, que não é cravo e canela porque os ventos frios que andam soprando por estas paragens não me permitem utilizar tal expressão. Estou temeroso por isso – a celebração vai se dar num sítio, que geralmente são lugares abertos. Mas isso não importa. O que interessa é que vai completar um ano de vida, a pequena.

Certamente receberá muitos presentes: uma boneca que fala, anda e come, uma casa da Barbie superequipada, uma chupeta que massageia as gengivas, essas coisas que não necessitam do esforço humano para funcionar – mas que “estimulam a inteligência da criança”, como dizem os fabricantes.

Os tios, avós, primos e toda a parentada certamente a encherão de mimos e ela certamente vai chorar, certamente porque nunca vira antes tanta gente em torno dela. Certamente haverá uma tia que beberá demais e provavelmente um tio que irá censurar a tia, e um avô que vai sorrir diante da situação.

Mas são só suposições. A única certeza é que, quando as velinhas do bolo forem apagadas, a escuridão do domingo, e do mundo, voltarão a reinar. E todos retornarão soturnos para suas casas, talvez pensando na segunda-feira, talvez comentando o vexame da tia, e se encontrarão na festa de uma outra criança, num domingo qualquer, daqui a dois meses talvez.

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