Por ERIKA MORAIS

3008 metros de extensão que representam os contrastes da alma paulistana. Conhecida em 1875 como Rua Maria Augusta, quando era uma pequena trilha que ligava a entrada da Chácara do Capão, atual rua D. Antonia Queiroz, à antiga estrada da Real Grandeza, atual Avenida Paulista, passou por muitas mudanças junto com a metrópole que a abriga. Da rua em questão a metrópole é São Paulo, mas Rua Augusta encontramos, entre muitas, em Lisboa ou em Maceió, onde o nome pode ser o mesmo, mas no coração dos paulistanos só existe uma em uma relação constante de amor e ódio.

Inspiradora, a Augusta, como é chamada, já foi tema de filmes e músicas e nos anos 1950 era reduto da alta burguesia, que freqüentavam seus cafés e faziam compras em suas butiques; no final dos anos 1960 e começo dos 1970, a jovem guarda tomava conta do pedaço e a partir dos anos 1980 a diferença entre “lado centro” e “lado jardins” tomou a forma que conhecemos hoje, algo como o “primo rico” e o “primo pobre”.

A vida cultural continua efervescente, com seus teatros, cinemas, clubes e bares. O “primo rico” começa a dar as caras no Conjunto Nacional, na esquina com a Avenida Paulista, os modernos fazendo compras na Galeria Ouro Fino e participando de festivais de cinema no Cine Sesc. O “primo pobre” por outro lado, concentra a diversão em alguns clubes para quem gosta da nova cena de bandas de rock, mas principalmente nas saunas e boates repletas de neons vinculadas à prostituição.

De um lado, é possível descer até as proximidades da Rua Oscar Freire, uma de suas 18 travessas, e comprar uma roupa com a assinatura Louis Vuitton ou Giorgio Armani, de outro, descer até chegar ao número 848, na modesta alfaiataria de Seu Gerson, costureiro com ponto na Augusta há 30 anos e encomendar uma calça sob medida.

Enquanto a juventude paulistana subia a Rua Augusta a 120 por hora em seus possantes ao som de Roberto Carlos e companhia, Gerson Souza chegava de São Luís, no Maranhão, para conhecer a cidade que alguns de seus parentes escolheram para morar. Depois de passar um ano no Rio de Janeiro, na casa de uma tia, veio para São Paulo, de onde não saiu mais.

Nasceu em Mirador, uma pequena cidade do interior maranhense, o pai comerciante de secos & molhados ainda possuía uma pequena fazenda com alguns gados e vários pés de frutas e depois de concluir o antigo primeiro grau teve que seguir para a capital como os irmãos mais velhos para poder continuar os estudos.

Enquanto dois dos muitos irmãos seguiram a carreira militar, Seu Gerson, por opção, preferiu aproveitar a juventude de outras formas e conta que era bastante namorador nesta época. Um comandante e um general do exército como irmãos lhe foi útil para a dispensa, que na época era dada apenas a lavradores, figuras indispensáveis no sustento da família. Os bons contatos também fizeram com que conseguisse uma passagem de avião de cortesia para visitar a família no Rio de Janeiro, pouco antes de vir definitivamente a São Paulo. “Consegui a passagem me passando por jornalista” conta com um sorriso de canto de boca.

O primeiro conato que teve com a costura foi como sócio junto com um amigo, ainda no Maranhão, de uma camisaria. “Na época meu tino era para o comércio, como meu pai. Então enquanto meu amigo costurava, eu negociava”. Mas Seu Gerson não teve como escapar, e já em São Paulo foi trabalhar na camisaria de um tio, onde finalmente aprendeu a arte de coser.

Com mais de 70 anos de idade e 30 anos em frente à mesma máquina manual Singer, que não troca por 10 modernas automáticas, sustentou a família com a ajuda da esposa, companheira que conheceu no Maranhão e se casou em São Paulo, e o casal de filhos. “Meu filho é calmo como eu, não é muito de bagunça. Não fuma e só bebe uma cervejinha de vez em quando com os amigos”. O filho que enche de orgulho Seu Gerson, é formado em medicina, com o dinheiro ganho na alfaiataria do pai. Da filha fala pouco, não dá trabalho também, mas não quis seguir nos estudos, preferiu trabalhar.

Os clientes de Seu Gerson são fiéis e abre um sorriso quando diz que tem cliente que vem de Pinheiros, onde existem vários alfaiates e até um cliente de Santos, litoral de São Paulo. ”É como barbeiro, quando o cliente gosta só vai querer fazer a barba com ele”. Hoje afirma gostar do ofício, mas admite que as coisas não sejam tão prósperas para a profissão, já que as pessoas não se preocupam tanto com a elegância como antigamente. Pelo menos não da mesma forma. “É mais fácil ir ao shopping e levar uma roupa pronta”.

Hoje em dia o lucro vem muito mais de reformas do que as roupas sob medida. A maioria dos clientes é de mulheres, que na opinião de Seu Gerson, são mais cuidadosas com o que vestem. Dos clientes homens, alguns ainda preferem suas calças costuradas pelas mãos cuidadosas do costureiro e sua velha Singer, uma calça sai por R$ 120,00, com o tecido do cliente. Não faz mais paletó, porque não valorizam a mão de obra.  “Dá muito trabalho, a mão de obra saía por R$ 500,00”.

A alfaiataria de Seu Gerson é modesta, um pequeno ponto que um dia foi uma banca de jornal, lá, um balcão com as roupas em que trabalha no dia, uma estante de ferro no canto direito do balcão, com as roupas que aguardam os cuidados do alfaiate, a maioria calças com barras para fazer, uma prateleira de ferro ao fundo com mostruários de tecidos definem o limite do ambiente, que na verdade é uma garagem da pensão que fica localizada na rua de trás. Ao lado da máquina de costura, Santo Expedito, o das causas impossíveis, ao lado do brasão do Corinthians, já que as coisas não andam fáceis para o time que o maranhense adotou na cidade que o adotou há 35 anos. 

Está a 30 anos na Augusta, mas neste ponto há cinco anos, antes ficava na mesma calçada, ao lado de onde está hoje, cerca de 5 metros de distância, diz que não trocaria seu ponto por um no “lado jardins”, pois ali é o endereço que sua freguesia conhece. Apesar de tímido, gosta de conversar e o tempo todo é interrompido por algum transeunte perdido procurando algum endereço na região da Augusta. “Sim, as coisas mudaram muito na Augusta, mas tudo muda não é mesmo? E as coisas vão e voltam. Quem sabe as pessoas voltem a procurar os serviços de alfaiates?”.

Nos planos de Seu Gerson está a aposentadoria e a volta para o Maranhão. Quer um lugar tranqüilo para descansar, mas nada de cidade muito pequena, já que acostumou bastante com a correria de São Paulo. Cuidadoso e prudente com as medidas, também faz planos de vida com cautela “Não posso ir de qualquer jeito, tudo deve ser bem pensado e planejado, mas vou sentir falta da Rua Augusta”.

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