Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

Raimundo Nonato da Silva, como tantos lá no norte deste Brasil, é um homem quase sem dentes, com aparência de mais ou menos 50 anos de idade. É pai de uma filha de seu segundo casamento e de três filhos do primeiro. Nascido no Maranhão, Nonato foi tentar a vida aos 30 anos no Amapá e de lá faz mais de 10 anos que não sai.

— Sair como, se o dinheiro é curto e o tempo mais ainda?

Mas Nonato não reclama. Diz que hoje está muito melhor de vida do que há um tempo atrás, quando era faxineiro numa mansão e tinha de obedecer a ordens de madames.

— Ali o que não faltava era madame – desde a criança, até a avó. Tudo mandona e madame, ri.

O sorriso de Nonato sai com facilidade. Ele mostra a boca sem dentes sem nenhum constrangimento. No hotel de selva de Macapá, – praticamente vazio em agosto – Nonato é um dos poucos funcionários ocupados numa tarde de quarta-feira. Mais uma tarde muito quente e muito úmida na única capital cortada pela linha imaginária do Equador.

Nonato trabalha no hemisfério norte do planeta. Acha graça e conta que demorou a entender o que isso queria dizer – se é que entendeu.

— Mas também, que diferença faz?, indaga.

O maranhense se preocupa mesmo é com Chica, a macaca que chegou ao hotel com marcas de corrente na barriga.

— Ela vivia presa, ali nem nascia mais pêlo, mostra.

Pega Chica no colo, acaricia como quem mima um bebê.

— Tenho muita pena desses bichos, sofrem como o que na mão dessas pessoas malvadas.

Nonato é o único tratador de animais recolhidos pelo Ibama na região. Ele atende os bichos que chegam ao Ceta-Ecotel, um empreendimento localizado em Fazendinha, município colado em Macapá, a capital do Amapá, para receber turistas que gostam de contato com a natureza.

Por estar localizado numa grande reserva ecológica, o Ecotel fechou uma parceria com o Ibama – todo animal capturado pelo órgão e que esteja precisando de atenção especial, fica no Ecotel aos cuidados de Nonato. Depois de recuperados, os bichinhos voltam ao seu habitat natural.

A grande felicidade de Raimundo Nonato é quando o Ibama chega para pegar os bichos que receberam alta.

— É sinal de que eu tratei bem deles, não é? Aí eles podem ser soltos nas árvores ou nos rios novamente, ser felizes pra valer. Quem gosta de viver aprisionado?

Ele explica que são muitos os bichos apreendidos irregularmente no Estado.

— Tá vendo aquela onça ali? Ela ficava numa coleira o dia todo, imagina o que é isso pra um bicho acostumado a viver solto na floresta! Aquele tucano está com as asas quebradas, não voa mais.

Quando avistam Nonato, os bichos se acalmam, chegam perto das grades dos viveiros, ansiosos por comida e carinho.

— Ehh, lindona, brinca o tratador com uma macaquinha pequena.

— Essa é minha bebê, diz o desprendido Nonato. De estatura baixa, mãos calejadas, cabelos pretos e pele bem morena, o maranhense não economiza elogios aos animais. Diz que aprendeu a amar a natureza vendo a fragilidade com que aqueles bichos chegavam ali. Na faxina do hotel, pediu para mudar de área e cuidar dos bichinhos, o que nunca havia feito na vida. Foi aceito temporariamente, a princípio, mas desempenhou com tanto gosto a tarefa que logo mudou de lugar definitivamente. E de lá, diz, só sai aposentado, de volta para o seu Maranhão.

De repente, lá de longe, no pátio do hotel, alguém grita:

— Quem taí nos viveiros? Eliseu? É você?

— Não, não é o Eliseu, não.

— Quem é, então?, pergunta o novato funcionário.

— Não é ninguém, é só o Nonato, explica.

Não é ninguém?


“Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

— Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…”

O Padeiro – Rubem Braga

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