Por ANA PAULA DO REGO

Val é o apelido pelo qual o conhecemos. Todas as manhãs, sorridentemente, ele nos recepciona com um amigável “Bom dia, tudo bem?”, e conduz seu instrumento de trabalho, um grandioso ônibus fretado, por um longo caminho que vai de São Matheus, zona leste de São Paulo á Alphaville, onde os seus 26 passageiros trabalham.

Com seu corpo franzino, cabelos pretos e o inseparável óculos, Val que tem apenas 27 anos aparenta ser bem mais velho, talvez pela postura encurvada ao dirigir, pela responsabilidade de criar 4 filhos, frutos de um casamento já terminado ou pela rotina cansativa de trabalho que o faz levantar ás 3:25 da manhã e dormir ás 00:00 horas, todos os dias, com raras folgas.

Aos finais de semana as viagens que faz quase sempre são para a cidade de Aparecida, interior de São Paulo, local que já conhece bem de tantas idas transportando passageiros.

Val, depois que se separou da esposa, pouco depois de suas filhas gêmeas nascerem, há menos de um ano, voltou a morar com a mãe e o irmão, na cidade de Taipas, em São Paulo. Seus pais se separaram quando ele ainda era adolescente, aliás, foi ele mesmo quem viu seu pai, então motorista de lotação, com a amante dentro do carro, uma passageira. Correu e foi chamar sua mãe.

— Mãe vamos dar uma volta, eu quero te mostrar aonde o pai “tá”.

— Seu pai está trabalhando…

— “Vâmo”, mãe, eu quero te mostrar uma coisa.

Pegou o seu carro e ao chegar perto da lotação, buzinou, seu pai olhou pela janela e foi então que a sua mãe soube, depois de 25 anos de casados, que ele a traia. Seu pai saiu de casa, sem deixar nenhum tostão para pagar as contas, Val teve que largar os estudos e começar a trabalhar, também como motorista de lotação. Atualmente, depois de muitos desentendimentos, os dois se falam normalmente, mas Val diz que seu pai se tornou uma pessoa indiferente pra ele.

As histórias sobre sua vida são contadas na maioria das vezes no trajeto de volta de Alphaville, no meio de buzinas, de xingamentos com outros motoristas no trânsito e de uma viagem que dura cerca de duas horas e meia até São Matheus. Val que tem apenas 4 meses de trabalho nessa grande empresa de transporte e turismo, já tem algumas histórias de briga no trânsito que assustaram os passageiros, numa delas arrancou propositalmente o retrovisor de um carro, depois que este o fechou em um cruzamento. O motorista do carro parou e o chamou para a briga, os dois discutiram em meio a um trânsito infernal na avenida do Estado. O motorista do carro disse que iria processá-lo, fato que não ocorreu, mas que deixou Val um pouco apreensivo, durante alguns dias.

Sua impaciência e irritação são agravados também pelo cansaço de tantos dias trabalhados sem nenhuma folga. No início do mês de outubro pediu ao seu encarregado um final de semana de folga, pois iria comemorar o primeiro ano de vida de suas filhas gêmeas. O pedido não foi atendido e restou ao Val faltar os dois dias, mesmo sabendo que depois seria punido com o “gancho”, ou seja, alguns dias em casa, de folga, mas sem nenhuma remuneração. Às vezes faz isso, quando percebe que o cansaço é demais, ou atrasa a linha se permitindo dormir até mais tarde.

Nessa rotina sem tempo, procura arranjar soluções para resolver problemas simples, como, por exemplo, cortar o cabelo. Descobriu um cabeleireiro que trabalha a noite justamente para atender as pessoas, que assim como Val, não têm tempo para cortar o cabelo de dia. Sendo assim, quando chega no salão, o dono já dá prioridade a ele, pois sabe que de todos ali é o que levanta mais cedo.

É dentro do fretado que parece se divertir, distrair dos problemas que tem lá fora, é ali que resmunga, que desabafa, que ri. È no farol demorado da estação Armênia do metrô que Val se satisfaz deliciosamente com várias paçocas que compra dos vendedores ambulantes e vai comendo pelo caminho. È no fretado que parece ter controle das situações que a vida lá fora não o permitiram ter.

Pelo seu jeito, pela sua história e força de vontade, Val representa uma grande parcela de brasileiros que levanta cedo todos os dias e ganha a vida trabalhando dignamente, tentando se divertir e aproveitar a vida nos intervalos que a responsabilidade permite e tendo nos lábios e no olhar sempre a satisfação de uma tarefa muito bem comprida.

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