Por LUCIANA TADDEO 

O céu não fechou e tampouco chorou a ausência dos homenageados daquele domingo. Ao contrário do tempo ruim que caracteriza o dia de finados na capital paulista e da previsão meteorológica, os raios de sol fizeram do dois de novembro desde ano um feriado diferente. As famílias que foram visitar os parentes falecidos foram surpreendidas com uma temperatura bastante agradável.

O muro branco que protege o Cemitério Araçá ao longo da avenida Doutor Arnaldo, na zona oeste da cidade, esconde a imensidão dos mais de duzentos mil metros quadrados ocupados por lápides que se estendem muito além de onde a vista alcança. Da rua consegue-se ver apenas a parte mais alta das esculturas instaladas na área mais nobre do terreno. Provavelmente é ali que estão enterrados Assis Chateaubriand, Cacilda Becker e, há menos tempo, Nair Belo.

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Se o interior é oculto, a vida que se contrapõe à paz dos que motivam a movimentação é escancarada. Pedintes encostados no muro, próximos ao portão de entrada do cemitério, chacoalham potinhos, fazendo tilintar as poucas moedas que receberam desde o início da manhã – ou que lá colocaram como exemplo. Vendedores de flores posicionados estrategicamente, formando um corredor, gritam eufóricos  “Promoção! Promoção!”, em antecipação à aproximação dos que chegam. Carros de polícia e ambulâncias se aglomeram na calçada oposta, em quantidade tamanha, que deixam os passantes em estado de alerta.

Entrar no cemitério só é possível após disputar espaço com alguns ombros e pernas. Apenas uma parte do portão está aberta e muitas pessoas entram e saem, carregando sacos plásticos, flores e material de limpeza. Em um banco, uma senhora mirradinha, com poucos cabelos bem brancos, o corpo curvado para frente e apoiado em uma bengala, reza o Pai Nosso em voz alta, indiferente à agitação.

O aspecto das lápides muda conforme se adentra pelas ruazinhas do Araçá. Em uma área mais baixa e de solo mais acidentado, os túmulos são mais simples e mais próximos uns dos outros. Mulheres se debruçam sobre as lápides de mármore com baldes de água, vassouras e panos, para limpá-las. A cena me lembra a primeira do filme Volver, de Pedro Almodóvar, na qual Raimunda (Penélope Cruz) faxina a sepultura da mãe.

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As flores murchas são substituídas por novos arranjos em cores vivas, os vasos quebrados vão para o lixo e velas são acesas até que se tornem um montinho de cera derretida, envolvendo um toco de pavio. Algumas pessoas perdidas procuram por túmulos. Uma senhora japonesa limpa os vidros de uma capela enquanto seus dois filhos brincam de colocar pequenos galhos de árvore no fogo das velas.

A poucos metros, outros dois meninos sobem uma ladeira com baldes, vassouras e rodos nas mãos, oferecendo serviço de limpeza com uma expressão de cansaço. São os primos Welinton e Washinton, que oferecem seus serviços de limpeza não só no dia de Finados, mas também em datas como o Dia das Mães e dos Pais. Como eles, vários meninos aproveitam essas ocasiões para ganhar um dinheirinho.

– Joga água aí… agora no meio… isso… agora na ponta. Passa um pouco de detergente… Não menino! Não põe tanto de detergente que depois não vai ter água para tirar a espuma. Pega a vassoura e dá uma esfregada… ahhhhhhhh, tá vendo? Olha a espumeira que você fez!

Quando acaba de seguir as orientações da “dona” daquela lápide, um jovem ganha cinco reais, que vai dividir com o amigo que o ajudou, e corre para atender duas mulheres, já irritadas com a demora. Calado, obedece aos pedidos de mãe e filha, enquanto elas comentam a falta de cuidado da administração do cemitério com a conservação e a limpeza do local. Comentam com ironia a presença de Gilberto Kassab na homenagem aos policiais militares mortos, realizada há algumas horas no mausoléu da PM no cemitério, que justifica a concentração de viaturas.

– Ele podia dar uma andada por aqui para ver essa sujeira. Aí ia chegar pra mim e me expulsar daqui aos gritos – diz uma delas rindo, em referência ao escândalo do prefeito em um hospital no início deste ano.

Escuto uma família conversando em italiano na rua de baixo e, para ouvir melhor o diálogo, me aproximo de uma lápide coberta de coroas de flores já murchas e de faixas com as mensagens ‘último adeus de seu genro e de sua comadre”  e “saudades de suas filhas”, indicando morte recente. Uma senhora pergunta se o “túmulo é meu”. Conhecia alguns dos parentes que iam velar os mortos lá depositados e queria saber quem foi o da vez. Digo que não sou da família nem a conheço, e ambas fazemos comentários como “é uma pena”, até que ela diz, bem-humorada:

– Logo, logo, somos nós que vamos e aí tricotaremos lá do outro lado. Essa é a única certeza da vida.

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