Por ERIKA MORAIS

Entrar naquele corredor com cheiro de poeira é como, desculpem o clichê, entrar em um túnel do tempo. Não, o lugar não é sujo e, apesar de a maioria do produto encontrado ter sido produzido há décadas, um material bem recente, pode ser encontrado, mesmo que importado. Também não é um museu, mesmo sabendo que ali existem grandes obras de arte. Na verdade trata-se de uma feira e as típicas caixas dos feirantes se enfileiram lado a lado. Nesta feira não há gritaria, os vendedores são, em sua maioria, senhores calmos, educados e que conhecem como ninguém o produto comercializado. Do outro lado das mesas e caixas, mais do que compradores: verdadeiros amantes.

Muitos homens, raras mulheres, não deixam passar uma caixa sequer, e com dedos ágeis, passam a vista e quando se interessam por algo, puxam para o alto, confirmam a originalidade, a data de fabricação e obviamente as condições físicas do produto. Um produto que não possui prazo de validade.

Quase 100% da mercadoria vieram de outros donos, passaram por várias mãos e principalmente embalaram dias e noites de vários ouvidos, por motivos que qualquer um de nós desconhece.

Entro mais uma vez na feira do vinil da galeria ao lado do Parque Trianon, na Avenida Paulista, em São Paulo. Alguns rostos já se tornam conhecidos, aqueles que têm discos que lhe interessam, quem possui bons preços, quem negocia e quem não dá desconto, de jeito nenhum.

É difícil parar para observar a feira quando se é um desses apaixonados. O primeiro impulso é o de enfiar a cara em uma dessas caixas e parar apenas para espirrar – apesar dos cuidados com a manutenção dos discos, é impossível não sentir os efeitos do tempo e o cheiro de décadas e décadas incrustados nas capas dos vinis – Atchim! – Saúde! Com um sotaque estrangeiro que não consegui identificar a origem (inglês, talvez), o homem branco, jovem, porém de barba ligeiramente grisalha, se debruça nas pequenas caixas de compactos. Fuça daqui, fuça dali e fica com uma Elis.

Parece conhecer muito de Bossa Nova. Aliás, os discos que normalmente possuem valores altos, são desse estilo musical que tanto encanta os gringos, desde os primeiros acordes de João Gilberto.

Logo na minha quarta caixa de feira me deparo com um Correio da Estação do Brás, um clássico do mestre Tom Zé, capa pouco prejudicada, vinil impecável: R$ 50,00. – Separa para mim, por favor. É normal pedir para o vendedor separar o disco enquanto você percorre toda a feira, assim, no final do percurso, define o que mais lhe interessa e as delícias sonoras que o bolso pode arcar.

Queria tanto um Beach Boys, tem um cara que sempre tem, e sempre fico na vontade…neste caso, o bolso não acompanha a vontade. Não sou colecionadora, gosto de música e tenho um carinho especial pelo vinil enquanto suporte. Não sou audiófila compulsiva, mas reconheço que nenhum suporte digital tem uns graves tão fieis quanto os vinis. E como todo entusiasta das bolachas, nenhuma capinha mixuruca de CD supera, nem de longe, o prazer de grande capa, principalmente as duplas, dos encartes, repletos de detalhes.

Dedicada em minha busca, esqueço do Thiago, meu companheiro de vida, casa, comida, roupa lavada e paixão por bolachas. Ele, que saiu de casa decidido a voltar com, pelo menos um Sonic Youth, – está na fase SY – volta com dois. Negocia com o japonês que não tem loja, não é vendedor: – sou colecionador, vendo para comprar.
A maioria possui uma loja, um ponto fixo, outros estão aos sábados na feira da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros e aos domingos na feira de antiguidades no bairro do Bexiga, mas as feiras exclusivas de vinis possuem um romantismo todo especial, é um momento onde aquelas pessoas se sentem parte de um grupo e apesar dos diferentes gostos e níveis de formação musical, possuem o interesse em comum de manter viva a circulação deste objeto tão quisto por esta classe, a classe dos apaixonados por discos.


Procuro um Transa, do Caetano. Tive o CD, perdi, mas queria mesmo o vinil. Passei por dois, boas capas, mas discos em péssimo estado, finalmente encontro um, com boa capa, ótimo vinil e preço convidativo: – separa pra mim, por favor.

Enquanto o Thiago negocia os SYs com o japonês, o Tomás, seu irmão, continua sua busca por um MC5, mesmo sabendo que um MC5 não se encontra assim, tão fácil. – Tomás, tem um MC5 aqui, mas ó, 150,00 pilas. Discos raros e discos novos nessa caixa. Tem até um Modern Times, o último do Bob Dylan, obviamente importado e por um preço que dá pra sair com, pelo menos, outros três Dylans, se você tiver a sorte de encontrá-los.

Temos apenas uma fábrica de vinil em produção no Brasil, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, no Rio, que, para sobreviver, tem que produzir muito copo descartável, já que os tempos áureos de vinis são idos. Apesar de a produção de outrora nunca mais voltar a ser a mesma, o vinil está na moda, para muita gente é “cult” tocar discos ao receber os amigos. Muitas bandas de rock e muitos rappers fazem questão de lançar seus trabalhos em vinil. Matérias sobre a “volta do vinil” estão circulando com força total, em jornais, revistas, blogs…nos últimos tempos. A busca por vitrolas fez esse pequeno mercado aquecer, além do trabalho de manutenção dos toca-discos e venda de produtos para limpeza, plásticos para capas, agulhas…E isso é bom! Se é! Se o vinil vai acabar? Se for, vai demorar muito tempo.

– Me faz um desconto nesse Jaco?
– Qual?
– Esse Jaco Pastourius.
– Posso fazer por R$ 15,00, pra você.
– Levo.

Na última mesa vejo exposto com destaque mais um Correio da Estação do Brás.- Cem??? Não obrigada…me fizeram por 50 lá na frente.
– então leva: 50.
– Ah, não, já segurei lá frente.

Em um dia de sol frio, há alguns meses, na feira do vinil de Santo André, um senhor, vendedor, ao me ver com sacolas de discos nas mãos, me pergunta: – ta carregando os discos para o namorado?
– Não senhor, eu carrego os meus e ele os dele.
Me sorriu educadamente, sabe-se lá o que ele pensou, mas me olhou de forma carinhosa e me ofereceu um Beatles.

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