Por SUZANA VIER

Todos por Pedrinho

O aniversário de Pedrinho foi meu segundo encontro com ele. Ao pedir ao pai autorização para conhecer o menino e escrever sobre ele, a receptividade foi enorme e na mesma hora, ele e Cris, sua esposa, me convidaram para a festa.

Na festa estavam as duas famílias, de Evandro e de Luciana; mais Cris; o padrasto de Evandro, tias, tios, crianças correndo por todo lado.

Pedrinho mesmo ficou de colo em colo. Distribuiu beijos e abraços por todo lado.
Em nenhum momento ficou na cadeira de rodas, nem brincou com outras crianças. O fato de conviver mais com adultos que com crianças, aparentemente, o faz mais adulto que as crianças de sua idade. Pedro fala expressões e palavras de adultos e as pronuncia com perfeição. A mãe pergunta sempre: “Tem certeza que você quer isso?”. “Certeza absoluta”, responde ele.

A disposição para a vida de Pedrinho consegue reunir no mesmo espaço familiares distantes de convívio e casais que encontraram seus ex-pares sem escândalos ou inconvenientes. A madrasta de Pedrinho, por exemplo, se une a Luciana, a mãe, para cuidar do pequeno, inclusive nos preparativos da festa. O encontro que começou às duas da tarde foi até às oito com empolgação. A empolgação maior era do aniversariante que não parou um minuto com seus abraços e de receber mimos de todos.

Os mimos são muitos, mas Pedrinho não é um menino mimado, nem dado a birras. Diz o que quer e quando quer. Expressa-se muito bem e sem cerimônias. Lida com a cadeira de rodas com tranqüilidade e segurança, como se fosse uma extensão natural de seu corpo.

Os pais contam que ficaram abismados no dia em que foram a AACD para retirar a cadeira de rodas do menino. “Ele viu a cadeira, quis logo sentar e já saiu andando, como se sempre tivesse feito aquilo”, contou a mãe. “Como ele observava as outras crianças, acho que foi tranqüilo pra ele lidar com a cadeira”, considerou o pai.

Foi essa naturalidade e segurança que me chamaram a atenção quando o vi pela primeira vez no elevador do meu prédio.

Eu estava correndo para acompanhar a reforma do apartamento onde moro e de repente o elevador parou no 7° andar. Pensei “só porque estou com pressa o elevador vai ficar parando o tempo todo”. Demorou um pouco até que a porta se abrisse. Não vi ninguém puxá-la. Estranhei. Até que sozinho, entrou Pedrinho dirigindo sua cadeira de rodas. Em seguida, surge o pai, que estava segurando a porta sem ser visto. Fiquei atônita com a segurança, a tranqüilidade e o bom-humor do menino, que ao me ver soltou um “Oi”. Sem pensar, comecei a questionar Evandro sobre Pedrinho, que respondeu tudo com calma e clareza.

Luciana também tem muita calma para explicar o porquê das condições especiais de Pedro e acredita inclusive que a deficiência do filho pode ajudar as pessoas a entenderem melhor as dificuldades e a vida de uma pessoa portadora de necessidades especiais. “Meu filho pode mostrar às pessoas esse outro lado da vida e ensiná-las a deixar o preconceito de lado. Muitas vezes há discriminação por falta de conhecimento. Como o Pedrinho é muito carismático e chama atenção por isso, acho que ele pode ajudar a criar consciência nas pessoas”. Muito serena, Luciana não se esquiva de explicar nada. Conta da gravidez inesperada, da expectativa para saber que deficiências Pedrinho teria, das dificuldades iniciais com a debilidade dele ao nascer, da alegria de vê-lo cada dia mais independente e seguro e das possibilidades de futuro.

Pequeno superman

Só o desenvolvimento das pesquisas de células-tronco podem ajudar o menino e milhares de outras pessoas com as mesmas necessidades. Pedro nasceu com mielomelingoceli, uma doença congênita causada principalmente pela falta de ácido fólico no organismo da mãe. Pesquisas com células-tronco estão sendo realizadas em universidades brasileiras. Os resultados iniciais são esperançosos, mas ainda não resolvem o problema de pessoas como da técnica de ginástica olímpica Georgette Vidor, que ficou paraplégica depois de um acidente de ônibus em 1997 e do ator, já falecido, Cristopher Reeve, imortalizado como super-homem nas telas de cinema.

Reeve lutou até a morte, em março deste ano, para voltar a andar. Criou um instituto para arrecadar fundos para pesquisas com células-tronco, divulgou e apoiou pesquisas nesse campo.

Ao ver Pedrinho com a camiseta de super-homem na aula de capoeira, foi automática a associação do garoto com o drama e a obstinação de Reeve. O ator sofreu com a perda de mobilidade, Pedrinho parece não se angustiar com a questão. Pelo menos por enquanto é um modelo de alegria e disposição para a vida.

Consciente das limitações do filho, mas nem por isso triste ou apático, Evandro num sábado de passeio no Ibirapuera teve a idéia de levar Pedro passear de bicicleta, afinal “não se sabe quando e se ele poderá andar algum dia de bicicleta”, comentou o pai.

Cris e eu acompanhamos o passeio numa bicicleta para duas pessoas e Evandro instalou Pedro numa bicicleta com cadeirinha na frente pra poder cuidar do bem-estar do pequeno.

De início, Pedrinho achou estranha a história, ficou com um pouco de medo,franziu a testa e ameaçou chorar, mas depois da primeira volta só parou uma hora e meia depois. Pai e filho eram só sorrisos. Pedrinho passava por nós e gritava “hei, olha eu aqui”, ou ria alto “hehehehe”. Abanava bracinhos e perninhas, sorria sem parar. Até que nos últimos momentos pediu pro pai “Quero andar com a Tia Cris, pai!”. Cris que estava de calça jeans e sandália plataforma bem alta, tirou o sapato e foi levar o menino para passear. Até então tínhamos andado de bicicleta desse jeito: Cris de sandália e eu com bolsa, máquina fotográfica, gravador… mas pelo menos estava de tênis, o que me fez pilotar nossa bicicleta meio desengonçada e com freio ruim até o fim.

Depois do passeio de bicicleta, Evandro preferiu ir pra casa, no meu prédio, porque o frio estava chegando. Os 500 metros que separavam onde estávamos até o estacionamento foram percorridos por Pedro na cadeira de rodas, que ele fazia questão de comandar. Por vezes, quase atropelou as pessoas na calçada, passou por cocô de cachorro, por pedriscos, mas não deu o braço a torcer, levou sozinho a cadeira dizendo “Não pai, deixa eu dirigir”. Pra entrar no meu carro, Evandro desmontou a cadeira e a colocou no porta-malas. Entramos no carro e Pedrinho foi todo conversador no colo do pai no banco de trás, enquanto eu e Cris já nos tornávamos confidentes.

No caminho de volta, perguntei a Evandro como é ser pai de um garoto especial como Pedrinho. Evandro, sem cerimônia, me disse “É uma bênção. Quando se tem crianças normais em casa, os pais ensinam os filhos. Quando temos uma criança como o Pedrinho, nós aprendemos o tempo todo. Claro que é preciso ter muita fé e coragem, mas vale cada segundo com ele”.

O pequeno superman vai embora com o pai e a madrasta todo feliz por um dia cheio de novidades, especialmente a bicicleta que ele experimentou pela primeira vez na vida. Por ser tão pequeno, ele não conseguiria dizer o que sentiu naquele momento, mas a feição doce e satisfeita me levou a crer que foi uma das melhores novidades que ele experimentou nos últimos tempos.

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