Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

Às vésperas de completar 78 anos de idade, o maître Oswaldo Almeida é um homem que ainda não conheceu a velhice. “Eu só olho para a frente e só vejo futuro”, diz.

Aos 54 anos de idade, achando-se meio fora de forma, barrigudo, resolveu tomar uma atitude. Até então, aficionado por futebol, ele era titular das peladas nos campos de várzea da Casa Verde, para os lados da zona norte de São Paulo, os seus preferidos. Mas a energia foi se esvaindo, a barriga crescendo e, com tudo isso, só lhe restou ir para o banco de reservas.

“Quem quer um jogador sem fôlego? Passei a ser preterido, isso me incomodou, vou te falar a verdade…”

Para reverter o quadro, passou então a se dedicar ao que hoje é o seu maior tesouro: as corridas. Não achou que ia se apaixonaria tão fácil pela atividade, a qual via com certa desconfiança no início.

Começou a correr apenas porque achou que seria a forma mais rápida de entrar em forma. Não se enganou. Mas gostou tanto que não quis mais largar o esporte. Deixou as peladas para uma eventualidade.

Mas avisa que as cervejas que acompanhavam o futebol – e que contribuíram para sua barriga despontar exagerada – ainda o fazem companhia, embora em menor número.

Seu Oswaldo gosta de contar suas proezas nas pistas. “Na última Maratona de Nova York, cheguei em segundo lugar na minha categoria. E eram mais de 100 pessoas. Poucas foram até o fim da prova”, garante.

Pele bem branca, cabelos ainda em grande quantidade para a idade, também branquinhos, ele tem a voz rouca, um pouco apagada. Seus olhos são de um ligeiro azul, esmaecido pelo tempo. O rosto revela as rugas próprias de quem quase chegou aos 80 anos, mas o corpo é esguio, musculoso na medida para um corredor de longas distâncias.

Toda segunda e terça pela manhã – 5h45, mais precisamente – seu Oswaldo bate ponto na Praça do Porquinho, no Parque do Ibirapuera, para as corridas supervisionadas desde 1993 por Wanderlei de Oliveira, seu treinador.

“Corri minha primeira maratona em 1994. Demorei 4h28 minutos. Na última, fiz em 4h13 minutos”, conta, orgulhoso do feito.

Na terça, já no final do dia, ele sai de sua casa no bairro do Jabaquara e, de metrô e ônibus, chega à estação rodoviária, onde pega o ônibus para Campos do Jordão.

É lá, no Hotel Frontenac, que Oswaldo Almeida exerce outra de sua grande paixão: servir os clientes. Seu Oswaldo é maître desde 1964. Antes foi barman e ajudante de garçom. Adora a profissão. “Gosto de comer, beber, de conversar com as pessoas, de atendê-las. Como não estaria feliz fazendo o que faço?”, indaga.

Por trabalhar com comidas, garante que sabe se alimentar muito bem, e tem acesso a produtos saudáveis. “Adoro peixe, salada, legume e frutas”.

Mas engana-se quem pensa que ele leva uma vida muito regrada: “Não passo sem um bom vinho, sem um uísque, sem uma cervejinha. Ah, e adoro doce”, avisa.

No hotel, depois que todos os clientes se vão, segreda, passa de mesa em mesa tomando os restos das bebidas que sobram nas garrafas – quase sempre vinhos de qualidade.

Sua rotina de maître começa no café da manhã, das 7 às 11 horas. Dá uma descansadinha até as 12h, quando entra para o almoço, e fica até as 15h30. Depois do batente, até a hora em que começa o jantar, às 19 horas, ele tira uma soneca. Seu dia de trabalho se estende até as 22h.

No dia seguinte, pela manhã bem cedo, faça chuva, frio ou sol, ele já está de pé, correndo para não perder o pique.

E assim nessa rotina ele segue até domingo no fim da tarde, quando pega o ônibus de volta para São Paulo. Quando desembarca na rodoviária, entra no metrô e dirige-se até as imediações do bairro de Santa Cecília, onde pratica dança de salão até as 22 horas. Daí então é hora de voltar para casa.

Casado com Dirce, reconhece que tem pouco tempo para a família. “Ela não quer fazer exercício comigo, nem dançar. O que eu posso fazer? Só digo sempre que ela está colhendo o que plantou, por isso não tem ânimo para nada, qualquer passada a cansa”, entrega.

É pai de Yara e Érika e avô de Bruno e Amanda, filhos de Yara. Dos netos e das filhas se orgulha, porque diz que eles vão para a academia. “Eu tento convencer a Dirce, bem que tento. Digo que sempre é tempo de começar, mas ela não me dá ouvidos”, reclama.

Seu Oswaldo garante que, além do corpo, cuida do espírito também. Adora ler, especialmente livros de gastronomia, sua outra paixão, e todo dia reza agradecendo a Deus a saúde que tem. No peito, carrega um grande crucifixo, que não tira nem mesmo para correr.

“Cada vez que completo uma corrida importante vou à Aparecida agradecer o meu feito. Da última vez trouxe de lá muitas fitinhas para colocar no braço e saí distribuindo em retribuição à minha chegada”, conta. Diz que ficou surpreso em ver quantas pessoas aceitaram o mimo religioso.

E seu Oswaldo gosta muito de gente também. Acha que isso é outra coisa que o revigora. “Não penso em parar de trabalhar. Eu adoro ir para o hotel, ficar conversando com as pessoas, elas me perguntarem sobre minhas corridas, trocar idéias sobre vinhos e comidas. Amo servir as pessoas e não vivo sem isso também”.

Agora ele se prepara para sua próxima prova, que será em Florianópolis (SC). “Vou correr até o fim da vida, garanto pra você.” Sem pressa, ele recolhe sua mochila no Ibirapuera, bebe água e segue seu caminho para casa, feliz com o dever cumprido mais uma vez.

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