Por Silvia Noara Paladino

Você poderia reservar um assento no corredor para mim, por favor? – solicito à funcionária da companhia aérea Jet Airways, no aeroporto de Suvarnabhumi, em Bangkok (Tailândia).

É difícil precisar em que momento o meu pesadelo começou, no entanto, se for para arriscar um palpite, diria que o meu pedido à tailandesa do balcão do check-in – uma moça de seus vinte e poucos anos, tom de voz baixo e cabelos cuidadosamente arrumados, sem um fio sequer fora do lugar – foi a porta de entrada para aquela fase de transição entre a vigília e o sono. Nesta etapa, a facilidade de se despertar é maior. Mas o fato é que adormeci como uma pedra.

Desde o início dos planos de minha viagem ao Oriente, a Índia aparecia como um elemento indispensável. Afinal, são três anos de prática de yoga e um fascínio curioso pela cultura indiana – aquela dos livros, dos documentários e das repetitivas matérias publicadas em cadernos de turismo e revistas especializadas. A passagem pelo país hindu, que se estenderia por uma semana e três cidades visitadas, se reduziu a dois dias e duas localidades exploradas o mínimo possível. Mas começo a me adiantar demais nos relatos. Voltemos ao pior vôo de toda a minha vida.

Coloquei-me entre os primeiros passageiros a embarcarem no vôo da Jet Airways, rumo à Delhi. Já havia algumas horas desde o último impulso desesperado de correr até o banheiro mais próximo – uma atividade que passa a fazer parte do dia-a-dia de um turista na Tailândia. De qualquer forma, já sentia um certo alívio de saber que garantira um lugar no corredor, no caso de qualquer emergência. Por alguns instantes, não me dei conta da gravidade de estar sentada na última fileira de poltronas da aeronave, bem ao lado dos lavatórios e da área de acesso restrito aos comissários.

Enquanto os indianos começavam a embarcar, procurei dar início a todo o meu ritual de vôo: separei um livro e o MP3 player, coloquei a bagagem de mão no compartimento e acomodei o cobertor azul-marinho sobre as pernas. Mas logo me dei conta de que a tranquilidade tão desejada para as próximas três horas e meia de viagem exigiria uma concentração digna de um mestre yogi.

O que tentei abstrair, sem sucesso, utilizando todas as técnicas de meditação que aprendi com a yoga, foi uma baderna que não se vê nem em feira de rua, rodoviária em véspera de ano novo ou concentração de camelôs na 25 de março, em época de Natal. Passageiros que não conseguiam encontrar seus lugares. Gritaria para resolver quem se sentaria aqui ou ali. Idas e vindas incessantes no estreito corredor. Vinte homens da Federação Indiana de Kong Fu – todos acima de um metro e oitenta de altura. Uma indiana bem acima do peso, com a barriga propositalmente deixada de fora pelo sári amarelo-ouro, sendo fotografada pelo marido em todos os cantos do avião. Uma TV, daquelas individuais, posicionadas na poltrona a frente, quebrada – a minha. Um senta e levanta dos infernos. Um barulho de tirar Dalai Lama do sério.

Em meio ao caos, a tripulação do vôo se completava por quatro comissárias tailandesas e uma indiana. Apenas um homem – também indiano. Delicadas e muito educadas, como geralmente são, as aeromoças tailandesas ganhavam aspecto de bonecas de cêra, por conta do pó excessivo em suas faces, mas não conseguiam esconder o semblante assustado com tamanha desordem. Elas tentavam acalmar a ansiedade dos homens de bigode largo e de suas esposas espaçosas. Se espremiam no corredor com os passageiros que pareciam estar 24h sem ir ao banheiro, ou que simplesmente queriam ficar de pé. Tentavam resolver os conflitos pela busca dos lugares certos. Suavam. Certamente, rezavam – até para os deuses hindus. Assim como eu.

– Senhor, retorne ao seu assento, por favor. Os avisos de apertar cintos ainda estão acessos – dizia uma das comissárias, cinco segundo após a aeronave sair do chão, a um indiano que pouco se importou pelo aviso.

Eu olhava para os lados, em busca de compreensão, consolo ou inspiração, mas o único alívio que pude sentir foi em reconhecer a indignação silenciosa nos rostos das tailandesas. Dentre todos os passageiros, eu era a única de nacionalidade diferente. E, ainda por cima, mulher. O que, para o indiano sentado ao meu lado esquerdo, lhe dava o direito de não respeitar o meu espaço. Ele tentou consertar a minha TV (sem que eu pedisse), escolher as músicas que eu deveria ouvir, me fez levantar pelo menos cinco vezes e, em vários momentos, manteve o olhar fixo em mim, observando cada ação de minhas mãos.

Se, em certas ocasiões, a sensação de chamar a atenção como se estivesse nua em praça pública me fez lembrar de todos os avisos que recebi, ao contar que iria sozinha à Índia, em outros momentos, eu parecia simplesmente invisível. Nas idas e vindas dos lavatórios, os indianos pisavam no meu pé, esbarravam no meu braço – ao ponto de me machucar –, se apoiavam no encosto da minha poltrona, me sufocando no já limitado espaço da classe econômica e, para melhorar, não pediam desculpas.

O pesadelo se estendeu ao longo de aproximadamente duas horas e meia de vôo, tempo suficiente para levar minhas forças ao esgotamento total, ao incômodo da garganta seca, à aridez do deserto, à impotência de uma vítima rendida.

Por favor, existe qualquer outro assento disponível nesse vôo? – perguntei, com lágrimas nos olhos, às comissárias, que estavam reunidas no cubículo reservado à tripulação.

Esse vôo está cheio. Você terá que ficar no seu assento – respondeu, com a mesma agressividade natural que notei em cada passageiro daquele avião, a comissária indiana.

Ela só perguntou se existe outro assento disponível –, tentou me ajudar, ao compreender instantaneamente minha aflição, uma das tailandesas.

Regressei ao meu assento, sem esperanças de que a minha voz solitária pudesse ressoar em um lugar sem acústica, sem ouvintes, sem solidariedade, sem respeito ao próximo.

– Você está sozinha, não é? – perguntou-me a mesma comissária tailandesa, ao me acompanhar até minha poltrona.
– Sim.
– Venha, eu vou encontrar outro assento para você – disse-me, quase que me pegando pela mão, querendo me confortar.
– Muito obrigada.

Acredito que eu só tenha despertado do pesadelo e do vôo mais turbulento em que já estive ao deixar a aeronave. Já a decepção de encontrar um povo rude, grosseiro e arrogante – ao contrário de todas minhas expectativas –, infelizmente, não foi apenas um sonho.

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