Por LUCIANA NORONHA

foto_pantanal1.jpg

Depois de passar uma semana na cidade de Bonito (MS) – cujo modesto nome não expressa a proporção de suas paisagens naturais – eis que chego ao Pantanal. O ônibus de linha despeja alguns turistas no “Buraco das Piranhas”, porta de entrada para diversas fazendas pantaneiras à beira do rio Miranda. Somos cinco, todos vindos do albergue da juventude de Bonito: dois rapazes holandeses, um jovem casal vindo da Austrália e eu. Os dois rapazes são tão altos e loiros como se espera que sejam os holandeses. A garota australiana tem a pela clara, cabelos ruivos e sardas muito simpáticas, e seu marido era loiro e grandão nas medidas, o que lhe conferia um andar levemente desengonçado.

Quando o ônibus parou, Toninho já estava nos esperando, e se apresenta. Ele nos levaria de camionete até a fazenda “Passo do Lontra”, onde ficaríamos hospedados. Toninho é muito bem humorado e não pára de falar um minuto, de forma que eu passo a ser a tradutora oficial português-inglês-português durante o translado. A viagem de quarenta minutos por estradas de terra, pantanal adentro, impressiona: me sinto uma gringa, conhecendo um Brasil distante e incrivelmente verdadeiro. Mais real do que a Avenida Paulista ou o Cristo Redentor.

Ao chegar na fazenda, somos recepcionados por Johnny, que tem nome e fisionomia diferentes do que eu imaginava para um pantaneiro. Ele é moreno, baixinho e atarracado, e tem os olhos levementes puxados, revelando alguma ascendência boliviana (apenas três horas de viagem nos separam da fronteira Brasil-Bolívia, em Corumbá).

– Hello, hello, hello! Nice to meet you. My name is Johnny, I will be your guide here in Pantanal. Now, I will show your room. Please, follow me.

Johnny domina o inglês tão bem quanto monta a cavalo, apesar de não saber ler nem escrever em português. Entretanto, as palavras pronunciadas por ele são acompanhadas por uma cadência e um senso de humor tipicamente brasileiros. Obedecemos suas instruções e o seguimos por sobre as palafitas. A fazenda fica à beira do rio Miranda, e todas as construções ali devem ser erguidas acima do solo, para resistirem aos períodos de cheia. Quando o rio transborda, só é possível sair das casas de barco.

Porém, nesta época do ano, tudo o que vemos abaixo das palafitas é a grama verdinha. Durante o ano de 2007, o Pantanal tem passado por um período de estiagem e seca especialmente rigoroso. Em outubro já fazia sete meses que não chovia pra valer. “Às vezes caem uns pingos”, alguém conta, mas a chuvinha rala não é suficiente nem para refrescar as plantas ou dar de beber ao gado, que definha e morre às beiras de estrada.

Chegamos ao quarto em que ficarão hospedados o casal australianos e eu. A divisão dos quartos não me incomoda, pois já havíamos nos conhecido muito bem durante nossa estadia em Bonito. Assim como eu, eles parecem não se importar com a simplicidade do quarto ou o chuveiro frio. Enquanto Johnny nos apresenta a fazenda, pergunto sobre os outros visitantes. Ele me responde em português.

– Por enquanto tem cerca de quarenta pessoas aqui, mas amanhã deve vir mais gente. Todos estrangeiros. Tem só mais uma moça brasileira ali, pescando. O nome dela é Rosa.

Durante o almoço, conheço os outros visitantes, vindos dos mais variados lugares, do México à Finlândia. A maioria deles está viajando em direção à Cordilheira dos Andes, e pretende seguir viagem para Corumbá – e de lá para a Bolívia. Após alguns tropeços no inglês, que me deixam pouco à vontade, me vejo buscando desesperadamente a única turista que fala a minha língua por ali. Rosa é carioca, de modo que em alguns minutos já estamos batendo papo animadamente. 

Após o almoço, saímos em um barquinho pelo Rio Miranda. O guia do barco é um moleque de vinte e poucos anos, moreno de sol, que conduz o barco e nos alerta, em inglês, para os animais próximos a nós. Seu olho aguçado é capaz de ver um macaco ligeiro ou reconhecer uma espécie de passarinho há dezenas de metros de distância.

Carcarás sobrevoam nossas cabeças e tucanos fazem pose para as fotografias, como se tivessem consciência de sua exuberância. Os tuiuiús parecem tímidos, apesar de seu tamanho e do nada discreto papo vermelho que exibem. Andam beirando as margens cuidadosamente, como se experimentassem a água fria. As ariranhas pescam em grupo, emergindo com um novo peixe a cada investida e segurando cuidadosamente sua refeição entre as patas, como se saboreassem um hambúrguer. Fico sabendo que as ariranhas são muito mais perigosas para os seres humanos do que os jacarés.

– O tempo todo vemos casos de grupos de ariranhas selvagens que matam pessoas. Elas não comem carne humana, matam só por matar. Quem come depois são as piranhas.

Aliás, o rio Miranda é infestado de piranhas. Ao lançar uma vara de pesca com um minúsculo pedaço de carne na ponta, não é preciso esperar mais do que cinco segundos para puxar uma delas. O problema é que elas escapam e ainda levam a sua isca.

Ao fim da tarde, o calor escaldante começa a diminuir, e o barquinho em que estamos retorna para a fazenda. O sol está começando a se pôr, e faz reflexo sobre as águas escuras do rio. O horizonte amplo sobre o mato seco e o sol já bem baixinho pintam o céu de vermelho. Por um instante, me sinto parte da paisagem. 

foto_pantanal2.jpg

Advertisements