Por FELIPE MODENESE

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Corpo Recostado.

Jorge Benedito Firmino.

Uma mocinha leva-se em 6 pernas, 4 de metal. Outra, sem pernas, a não ser as rolantes… Mais outro senhor, com três: uma delas é segurada pela mão em um gancho, de madeira. A outra é falha. Uma outra dona vai rolando, de perna amputada.

Rogério Aparecido Silva.

Bonés, gorros, chapéus, boinas, lenços, presilhas, elásticos, piranhas, tocas, fitas, tranças, coques. Cabelos soltos, presos, amassados, penteados, caídos, com gel, emoldurados, de franjas, desconjuntados, derramados (na memória), alisados, cortadinhos, aprumados, esbaforidos. Crespos, ondulados, encaracolados, lisos, cheios, falhos, albinos, marrons, vermelhos, beges, manchados, brancos, amarelos de velhice. De sapiência e amargura, desilusão esperançosa, glória e astúcia, petulância, conforto confinado, ignorância, luta, força e brandura.

Glória dos Santos Oliveira.

“Uma pipa sem linha” passa, segundo um dos funcionários da recepção, Joseílson Fernando Salgado. É uma senhora de Monte Sião, obesa e mancando. Sozinha, veio. Está. E vai.

Vinicius Augusto Moraes

Vai um recém-nascido. Recém-parido. Nos braços do avô. Inconsciente da miscelânea de dores, ausências e experiências zunindo nos ouvidos da gente. Segue. Cai. Faz do macacãozinho um pára-quedas no país tropical. Parecem condensar em sua pele, fresca e polida, germes da surdez gritada, da palidez dos gemidos, suspiros de um povo desrespeitado desde sua origem, grunhidos.

José João Martim.

Filhos de uma pátria rastejante são atendidos. Esperam o chamado do autofalante recostados em filas, bancos de concreto, cadeira de assentos polidos por gerações de bundas resignadas. Deslizam em poltronas disformes. Cotovelos apóiam a cabeça caída. Encostam a alma doída. E largam o corpo estendido ao socorro do atendimento precário de um dos melhores hospitais públicos da terra brasileira.

“A reportagem vai trazê dinhêro pra nóis?”, pergunta a outra funcionária da recepção.

“Pode ser que sim! Quem sabe?”, responde minha esperança esterilizada.

Maria Nalva Santana.

Num carrinho vazio de quatro rodinhas passam os suprimentos. Produtos de limpeza. Esterilização…

A Paz do Senhor.

A maioria não nota a planta rastejante que se esparrama num dos canteiros. Mas ela nota todos. Não só nota, mas alimenta-se da luz e do tormento humano liberado aos murmúrios. Em busca de saúde e dignidade no país capenga. Cresce calada e verdejante. Rasteja, oferece seu frescor e seu oxigênio a um saguão asfixiado. Tem é pena desse povo ultrajado, escravizado por uma esperança roubada. Esterilizado em seu estado de desengano.

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