Por WAGNER HILÁRIO 

No centro da parede verde texturizada da sala do meu apartamento, Gauguin me olha desconfiado: “Cê vai se dar ao trabalho?” Eu finjo que ele não existe, me afasto, na direção da varanda e dos sofás, onde me sento. Pego o controle e ligo a TV… Bom, muito bom! O Corinthians empatou e os fogos de artifício que ouvi enquanto estacionava o carro eram amigos, eram alvinegros. Vamos virar, vencer o Grêmio e não dependeremos da vitória do Internacional de Porto Alegre sobre o Goiás para permanecer na primeira divisão.

Jamais acreditei no rebaixamento. Acreditava que São Jorge, invisível e transformado em vibrações, sairia da garganta dos milhares de torcedores e tomaria o corpo dos frágeis jogadores fazendo-nos fortes ao menos uma vez, ao menos em uma partida. Se essa reza brava não desse conta, o Corinthians ficaria na elite do futebol brasileiro em razão do tradicional jogo de interesses, em razão das cifras que gera aos cofres da maior emissora de televisão do País, da CBF e do Clube dos 13.

Quando vi as lágrimas no rosto de um dos torcedores assim que saiu o gol do Grêmio, aos 30 segundos de jogo, peguei o carro e resolvi levar meu filho para dar uma volta. É a maneira mais eficiente de fazê-lo dormir e ele me parecia com sono. Coloquei um CD suave e tentei me acalmar, esquecendo da partida. Ele não dormiu e eu não me acalmei. Pelo contrário, sentia quase que uma abstinência da televisão. Por isso voltei voando. Quando entrávamos na garagem, ouvi gritos que pareciam champanha desarrolhada e fogos de artifício pipocaram no céu.

“As bombas tão soltando pum”, disse uma vez meu filho ao ouvir o barulho dos rojões.

Lembrei da poética leitura, ri e intui que o Corinthians havia empatado. Entrei no apartamento ansioso por ver o primeiro gol do jovem Lulinha, de apenas 17 anos. Ótima hora para desencantar… Mas nada, foi o Clodoaldo, um centroavante que nem no banco de reservas vinha ficando. Aliás, ele só jogava aquela partida porque três dos atacantes à sua frente na preferência do técnico estavam fora de combate, por contusão ou por suspensão.

Otimista por natureza, pensei… “É a prova de São Jorge. Ele já domina o corpo de alguns… Vamos virar!” O que virou foi o meu estômago. O 1 a 1 ilustrava a magreza do espetáculo e tinha a impressão de que os jogadores do Corinthians em vez de jogar futebol brincavam de corrida de saco. Eles só corriam e quando a bola lhes chegava aos pés não tinham como fazer o pouquinho que sabiam. Acho que é isso o que os crentes querem dizer com “Tá amarrado!”.

Estavam amarrados, presos por um grilhão invisível e conforme o tempo tiquetaqueava a minha certeza morria resignada nos rostos desesperados dos torcedores no estádio que pareciam ver a mesma inacreditável impotência que eu via. Os marmanjos choravam aos soluços e eu, no conforto da sala de um alvinegro moderado, que se dá o direito de pintar as paredes do cômodo de verde, lamentava a catástrofe menos pela instituição do que pelos chorões.

Estava claro que naquele instante a derrota não era apenas do time de coração. Com o Corinthians, naufragavam fraquezas, inseguranças e fracassos pessoais que o time de Parque São Jorge escondia sob suas glórias. Torcer é como ser viciado em algum alucinógeno… O velho ópio do povo. Só que quando a droga deixa de ter efeito a dor sai do porão e se senta ao seu lado no sofá da sala. A fraqueza do Corinthians era a minha, a de todos os torcedores e a dos jogadores estilhaçados no campo da derrota… Fim de jogo. O morto finalmente fora enterrado. Não havia mais corpo para velar.

Os fogos do céu me ofendiam pela varanda e pela janela. Minha esposa, completamente desinteressada e avessa ao esporte, veio do quarto do menino, onde inventava arte para enfeitar o lar. Ela se assustara com ribombar pirotécnico e me perguntou…

“O que aconteceu?”

“Tão comemorando. O Corinthians foi rebaixado.” Falei tão baixo que ela não escutou. Porém, se falasse mais alto, embargaria na voz as lágrimas que os olhos, com muito esforço, tentavam esconder.

“O que aconteceu?”

“O Corinthians foi rebaixado”, disse sem olhar para ela e andando na direção da cozinha.

“Putz.” Ela via minha aflição… O episódio em si, para ela, não queria dizer nada.

Peguei um iogurte, daqueles funcionais e sem gordura, dela. Joguei fibras, dela, dentro e comi. Peguei outro e fiz a mesma coisa. Se tem algo que não sou é ressecado, nunca vivenciei prisões de ventre, mas àquela altura queria comer algo bom. E o negócio, sabor manga, com as fibras, ficou bom.

O ato impensado e compulsivo, fruto da fatalidade, poderia me trazer desarranjos mais adiante. Logo me dei conta disso. Mas talvez eu realmente quisesse purgar alguma coisa. Talvez eu quisesse purgar aquele rebaixamento, embora o mais sensato fosse o rebaixamento servir de purgante para o Corinthians; purgante dos cartolas gananciosos e de oportunistas lavadores de dinheiro.

Volto para a sala, desconsolado, e me sento em frente ao computador, pertinho do quadro de Gauguin, para fazer sei lá o quê. O artista auto-retratado me olha de novo e como se lesse meus pensamentos parece perguntar… “Cê vai se dar ao trabalho? Vai se dar ao trabalho de ter esperança?” A verdade é que não tenho muita, o que talvez explique a escolha pelo verde na parede. É esse pouco, arranhado como a textura, que me faz ser alvinegro, brasileiro e humano, até o fim.

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