Por LUCIANA TADDEO

Na mesma semana em que Maria* perdeu os cristais, seu marido disse que queria se separar. Não era um dia diferente dos outros. Ela cuidava da casa, administrava os afazeres da empregada e mexia no computador. De repente, um barulho estridente vindo da sala, que “parecia uma explosão”, invadiu o quarto. Copos e taças de cristais que estavam guardados na cristaleira foram reduzidos a estilhaços. Uma das prateleiras caiu e levou as que estavam embaixo, em efeito dominó.

Bem que a sogra de Maria dizia: cristal quebrado é sinal de desgraça. O prenúncio foi confirmado alguns dias depois.

Marcos* é um homem tranqüilo, ponderado, organizado. Usa sempre roupas da mesma cor, vai todos os dias à academia, tem poucos amigos (e não se mostra nada incomodado com isso) e tem como lema o “deixa barato”. Para deixar barato com Maria, é preciso ser paciente, muito paciente. Bem assim como ele é.

Marcos vai diariamente ao supermercado para comprar alguma “coisinha” que faltou nas últimas compras, levanta sem reclamar durante a madrugada para buscar os filhos onde quer que estejam e lava a louça dos almoços de domingo. Durante anos, levou café na cama para a esposa.

– Ah, mas não era isso que eu queria! – ouvi, por vezes, Maria reclamar.

Ninguém nunca entendeu como o casamento se sustentava. Talvez nem mesmo eles dois. Maria tem um gênio explosivo, quer tudo no minuto que pede, faz um escarcéu por um jornal fora do lugar ou um par de botas esquecido na sala. Grita sem se preocupar com os vizinhos, fala palavrão, age como uma criança.

– Ninguém me ajuda nessa casa! Merda! Vou embora daqui! – ameaça, pelo menos uma vez por mês.

Marcos tenta resolver na conversa, é discreto e faz cara feia para os filhos já crescidos cada vez que palavras como “saco”, “bunda” ou “peido” são pronunciados.

– Olha o vocabulário! – esbraveja.

Apesar das diferenças, o silêncio dele diante do descontrole dela parecia fazer o relacionamento fluir. Talvez a razão para as características tão difíceis de engolir em Maria, dessa inconseqüência absurda que tanto me irrita – afinal, ninguém é obrigado a aturar tanto -, fosse a certeza de que ele sempre estaria lá. Ela acreditava na eternidade e Marcos nunca demonstrou outra intenção que não ficar ao lado dela.

Mas silenciar não significa compreender e concordar.

Maria chorou pela cristaleira. Salvou o pouco que deu, de uma prateleira que permaneceu intacta. Chorou também pela perspectiva de não envelhecer junto com Marcos. Do motivo dessas lágrimas, porém, não há o que salvar. Quando uma das partes resolve que o amor acabou, o que se pode fazer?

Marcos e Maria ainda vivem sob o mesmo teto, mas ele avisou que em breve se mudará para um flat. A cada semana, ela confirma o que não quer aceitar:

– Você vai mesmo se mudar?

Diante da resposta positiva (negativa para Maria), o início da discussão de sempre. E, no encerramento da conversa, o veredicto:

– Você é um insensível! – diz ela, com a cara lavada por lágrimas.

Ele não me acha mais bonita, não me ama mais, arrumou outra mulher – são hipóteses. Mas Maria, desde o dolorido anúncio, nunca se perguntou se pode ter provocado aquela ação, o que pode aprender com a mudança e como pode tornar-se uma pessoa melhor.

Naquela semana em que os cristais quebraram, perguntou a ele:

– É porque eu estou gorda?

Só ela não entendeu.

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