Por FRED LINARDI

O que reserva um vôo de São Paulo a Salvador em pleno domingo de manhã? Não muito, na verdade. E isso já é lucro. Chegar ao destino é o mínimo. O restante, quanto mais tranqüilo, melhor.

Foi com isso em mente que me sentei naquela última poltrona no avião, beirando o corredor, e me pus a ler a revista de bordo da companhia. Ao meu lado sentou-se uma moça que, depois eu soube ser uma enfermeira em seu primeiro dia de férias, que seguiria viagem para Maceió.

Do outro lado dela, porém, observando quase o tempo todo a pista do lado de fora da janela, um homem de aparência oriental ocupava com seu corpo mirrado a terceira poltrona. Antes de o avião alçar vôo, o passageiro virou-se para a enfermeira perguntando algo com uma voz inaudível aos meus ouvidos, e calou-se após receber uma resposta negativa de sua vizinha de poltrona.

Mal o sinal de atar os cintos de segurança foi desligado, a enfermeira ao meu lado levantou-se, fazendo com que o espaço entre mim e aquele magro homem, vestido de roupas sociais, ficasse livre para agora a pergunta vir para mim:

— Você entende inglês? – perguntou num macarrônico e terrível sotaque asiático.

— Sim. – respondi, com um breve dejavú, e temendo ainda alguma infindável conversa à la Torre de Babel. Pensei na possibilidade de a moça que estava entre nós ter encontrado um acento mais confortável e descartado a possibilidade de voltar a sua poltrona original.

— São Paulo é uma grande cidade?

— Sim. Enorme.

— Maior que a capital do Brasil, Brasília?

— Bem maior. A grande São Paulo tem 18 milhões de habitantes.

— E Salvador? É grande? É maior que São Paulo?

— Salvador é uma grande cidade, mas não quanto São Paulo. – Respondi ao mesmo tempo em que ele virou novamente para a janela observando a massa de construções cinza que se estendia no cenário lá em baixo. – São Paulo é a maior cidade da América do Sul. – arrematei, para não restar dúvidas.

— Ah. Véri bigui! Eu cheguei ontem e vim para um worquishópi de uma empresa.

O sotaque dele parecia tomar conta do meu limite de entendimento quando, na seqüência, ele disse:

— Sou do Vietnã. Fãstaimi in Brasil.

O pobre homem mostrava um certo desconforto com a origem e o destino de sua viagem em território brasileiro. Viajava sozinho e estava vivenciando algumas dificuldades.

— As pessoas aqui no Brasil não estão muito preparadas para falar inglês. Tive muitas dificuldades. Até mesmo no hotel: quando fui à recepção, eles precisaram chamar uma outra pessoa para falar comigo. Ninguém me entendia. Poucas pessoas estão aptas a falar inglês aqui.

Segurei minha indignação e a risada que insistia em sair a qualquer momento e apenas respondi “Really?!”

O momento de aflição idiomática findou com a volta da enfermeira que estava entre nós. Uma fronteira física voltou a separar o oriente do ocidente, cuja comunicação já estava prejudicada desde o início. Contei a conversa para ela, como uma necessidade de expor o que havia acabado de acontecer.

— Seria bom você explicar para ele, quando chegarmos em Salvador, que lá não tem horário de verão. – ela me sugeriu.

Deixa para lá.

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