Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

O sapato não era de cristal, tampouco algum dia na vida ela se sentiu uma Cinderela – ao menos não como aquela das histórias infantis: linda, loira, cinturinha de pilão, vestido esvoaçante rodado até os pés, cheia de laços, cabelos de festa, pronta pro baile, um príncipe no seu encalço.

A verdade é que sempre se identificou mais com a abóbora.

Mas naquele dia, ao final de tudo, até que ela aceitou de bom grado o papel que o destino lhe reservou. No meio de um leve sentimento de humilhação, percebeu que pelo menos que teria uma história divertida pra contar depois.

O relógio já marcava mais de 8 da noite de uma sexta-feira quente de dezembro. Fim de ano na maior metrópole do continente sul-americano. 18 milhões em ação na Grande São Paulo.

Na Linha 2-Verde, estação Consolação, com cerca de 52 mil entradas de passageiros ao longo do dia (muito longe de ser a mais movimentada estação do metrô paulistano) -, adentra o recinto a futura Cinderela.

Calça preta, camiseta branca, bolsa, sacolas na mão, sapatos de saltos baixos, de couro, fechados na frente, com elástico atrás. Um de seus preferidos – vermelho e preto.

Cinderela desceu normalmente as escadas rolantes, sem muita pressa. Seu príncipe – ops, ele existe, embora esteja anos-luz de distância dos idealizados príncipes dos contos de fadas – a esperava, como de praxe, nas imediações da estação Brigadeiro. Mas anos de convivência já a deixaram escaldada: o príncipe nunca chega na hora nos encontros.

Então ela estava na dela, sem se animar a sair correndo. Mas logo ouviu que o trem se aproximava. Apertou o passo para não perder aquele metrô.

Na porta do primeiro vagão, cedeu gentilmente a entrada a uma senhora apressadíssima, cheia de pacotes. Também deixou o homenzarrão mal-educado passar na sua frente, já que ele parecia tão desesperado. Tentou respeitar as indicações das portas, “Entrada” e “Saída”, coisa que quase ninguém costuma fazer. Cinderela está longe de ser perfeita, mas entende que a cidade tem de ser o espaço máximo da solidariedade. Caso contrário, como sobreviver a ela?

Naquele dia, parte dessa sua filosofia de vida foi posta à prova. Entre ela e o homenzarrão, estava um homenzinho franzino, mas com uma força descomunal nos pés. Sem cerimônia nenhuma, no calor do empurra-empurra, ele pisou no elástico traseiro do sapatinho de couro da Cinderela urbana. O pé foi, o sapato ficou. Ou melhor caiu. Num lance quase cinematográfico, Cinderela viu seu modelito fashion despencar trem abaixo, no espaço que separa o vagão da plataforma.

Um puta que o pariu sonoro saiu de sua boca, seguido de “caralho, meu sapato caiu”. Todos olharam espantados para o feito. Perplexos, em silêncio. Mas, no meio do susto e da raiva, Cinderela ainda teve presença de espírito para saltar do trem, em busca do sapato perdido. Pior seria ficar descalça no vagão, sob o olhar espantado de todos.

Na plataforma, mancando, nem olhou para trás, para conferir o item perdido. Foi em frente, em busca de um fiscal desesperadamente. No meio da procura, o ridículo se transformou em riso. Tentou rir de si mesma, para aplacar a vergonha. Pensou numa história. Arrancou o outro sapato, fingiu-se machucada. Se ainda estivesse chovendo, vá lá…

De longe, ouviu alguém falar: “olha aquela mulher descalça”. Voltou a ficar desconfortável, enfiou o sapato que lhe restava no pé esquerdo e encarou a escada rolante enorme à sua frente.

– Moço, preciso de uma ajuda, disse ao fiscal. Perdi meu sapato ao entrar no trem.
– Isso é o que mais acontece aqui. Vou ver se tem alguém para pegar pra senhora, resmungou entre dentes o rapazinho entediado com seu ofício.
– Ok, obrigada.
– Não tem ninguém agora, quem pode pegar está jantando. Eu não estou treinado para entrar na plataforma, é muito perigoso.
– É, eu sei. Eu aguardo. Só vou ter de sair pra ligar pro meu marido e avisar que vou demorar.
– A senhora é quem sabe. Não posso liberar a catraca, tá?
– Tudo bem. (Ele podia ser mais simpático, sorrir, me fazer sorrir, mas ok, aí já seria pedir demais daquele moço).

Cinderela saiu porque o celular não pegava. Subiu um pouco a escada e avisou o príncipe, que rapidamente se tornou um sapo.

– Você não sabe o que me aconteceu. Perdi meu sapato no metrô.

Do outro lado, o que se ouviu foi uma sonora gargalhada. Ok, é engraçado mesmo, mas ele precisava reagir assim? A vontade de Cinderela foi de chorar. Mas se conteve, se acalmou e no fim até riu.

Voltou ao seu lugar, junto dos fiscais. A pessoa autorizada apareceu, ainda mastigando.

– Vamos lá, quero ver onde foi.
– Ah, não quero ir lá de novo, eu explico onde é.
– Mas assim fica difícil.
– Não fica não, tá logo ali, onde abre o primeiro vagão.

A mulher, uma senhora de cabelos bem grisalhos, andar masculino, foi batendo os pés, meio contrariada. Demorou a voltar. Devia estar analisando a área. Quando chegou, entrou mais uma vez no posto dos fiscais, vestiu um colete de sinalização, fez umas ligações. Saiu novamente, escada abaixo. Ninguém dava satisfação à Cinderela.

Resolveu perguntar ao segurança.
– Ela avisou para o trem atrasar. Vão te xingar até no metrô, hahaha.

Hehehe, pensou, que engraçado, né? Agora ele ri…

– Ah, fazer o quê? Por isso é que não desci para a plataforma com ela, explicou-se Cinderela.

Dali um tempo volta a bruxa má, ops, a segurança, sapato entre os dedos, com cara de quem carrega uma barata morta no ar. Deposita-o no chão, sem olhar para a Cinderela, que, apesar de já respirar mais aliviada, esperava ao menos um sorriso de solidariedade.

– Muito obrigada.

A senhora nem respondeu. Cinderela até havia pensado em lhe dar uma gratificação pelo serviço prestado, mas, diante daquele rosto tão contrariado, abortou a idéia.

Disse adeus ao segurança que a atendeu, agradeceu a atenção dispensada e foi embora satisfeita da vida, pensando em como é bom ter dois sapatos no meio do asfalto. Algumas estações para a frente, um príncipe risonho a esperava. A vida era boa.

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