Por SILVIA NOARA PALADINO 

Contar as vezes em que estive entre a multidão à espera pela virada de ano na praia do Tombo, no Guarujá, daria muito trabalho. Para isso, teria de consultar a memória de mãe, avó, tios, ex-namorados e até os antigos diários de menina dos quais não consigo me desfazer. E, ao final, as informações, certamente, seguiriam rotas diferentes, com raros cruzamentos. Digamos que seria mais fácil recordar-me dos anos em que o cenário da troca de calendário foi outro.

De qualquer forma, em todas elas, a queima de fogos à meia-noite foi mais graciosa e barulhenta graças à tradicional contribuição de alguns bons milhares de reais de um único homem. Parece que é conhecido por ‘seu’ Orlando, mas, para mim, é só o proprietário de uma das belas casas localizadas de frente para o mar do Tombo. Na verdade, seu refúgio de veraneio, que cultiva a simplicidade de uma moradia de praia, não perdeu a minha preferência nem mesmo para as novas e modernas mansões vizinhas.

“O homem tá numa tristeza que só”, foi o desabafo que consegui roubar de uma conversa alheia, no calçadão da praia, poucas horas antes da passagem para 2008, enquanto os últimos raios de sol se desfaziam por detrás do morro. O comentário partiu do velho caseiro da casa de madeira – como costumo chamar –, que parecia dividir com o patrão a frustração de ser privado de um prazer que foi seu por dezenove anos consecutivos. Depois de tanto tempo, ‘seu’ Orlando teve de recolher os fogos para dentro de seus muros. Segundo o caseiro, a prefeitura apareceu por lá e, por segurança, impôs uma série de restrições.

No final das contas, diria que a tristeza do homem cuja fisionomia me escapa sem possibilidade de retorno foi, naturalmente, repartida entre os que lamentaram o espetáculo decadente de réveillon da praia do Tombo – prejudicado, também, pelas cadeiras vazias daqueles que se voltaram para outro palco, o das Astúrias –, as fracas ondas que se quebraram em desejos de ano novo e as reflexões solitárias de que, bem, o mundo não é nada lá muito justo, não é mesmo?

Acontece que as primeiras horas de 2008 também não foram, exatamente, como eu imaginei. Muito menos repetiram dias e noites de novos anos passados. Desta vez, os abraços de comemoração foram embalados pela música eletrônica que se alastrava de um dos quiosques do Tombo a todos os cantos da praia. A cerveja não caiu bem. A habitual choradeira da transição para o novo calendário chegou com atraso de dois dias, quase me sufocando. Sem falar da festa que teve fim no pronto socorro do Hospital Ana Costa, em Santos. Nada de grave. Só um azarento embriagado que, no ritual das sete ondas, estourou o nariz na areia. Solidariedade? Mais ou menos.

Até a Mel, um poodle de seis anos, um quilo e avessa a pisar na grama, comeu o que não deveria – “foi muito parmesão”, alguém arriscou – e precisou correr para São Paulo. Ficou internada, mas já passa bem. Amigos fundamentais também foram pegos de surpresa por problemas e tiveram de abrir mão da festa. O primeiro dia do ano foi de nuvens e pancadas de chuva. O romance de verão teve possibilidades cortadas antes mesmo de subir a serra.

A chegada de 2008 não foi aquilo que esperei, é verdade, assim como não deve ter sido para tantos outros. Eu poderia dizer que o ano não começou bem. Mas estou contente.

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