Por ANA PAULA DO REGO

Sentada juntamente com a obrigação de ser capitalista, ela trabalha freneticamente.

Olha para um futuro tão distante que almeja alcançar. Distante do presente, o que tanto lhe agoniza, sente que seu lugar não é ali, mas sim tão longe quanto os pássaros que voam além do concreto que a separa da liberdade.

Não vê sentido e nem mesmo alegria para o que faz, como pode conviver com números se o que verdadeiramente ama são as palavras? Como pode pisotear tanto no seu próprio coração? Por isso se sente angustiada, presa, desanimada.

O que queria na verdade era respirar a arte, o escrever, a literatura 24 horas por dia e conviver com os escritores, não ver o tempo passar, ter a companhia diária dos seus livros, que ama tanto, ter mais sede do que tem por conhecimento e ser reconhecida pela sua dedicação ao seu sonho realizado.

Para Sônia* não importaria mais os dias pesarosos que todos temos de vez em quando, para ela todos os problemas se tornariam tão pequenos se ao menos pudesse ter o gostinho de ser o que realmente é, e fazer o que verdadeiramente ama.

De cabelos levemente ondulados que insiste em escondê-los em um rabo de cavalo ou emaranhados em um coque, óculos de aros discretos e uma timidez incomparável, ela caminha pela vida com a nítida sensação de que somente a observa, como se estivesse sentada em uma arquibancada vendo-a desfilar em um carro alegórico rodeado de fantasias e colorido.

Dificilmente sai de casa, prefere o campo do que a praia, também o que se poderia esperar de uma paulista pura filha mais velha de uma família que descende de portugueses, italianos e europeus?.

Poucos amigos é o que tem, são os mesmos de sempre, aqueles que cresceram junto e acompanharam os momentos mais felizes e os mais difíceis de toda a sua vida.

Possui um amor que durante 5 anos, aproximadamente, é o que a faz feliz e o único que compreende suas frustrações profissionais.

Com 27 anos completados no último mês de Junho, Sônia divide seu escasso tempo com a família, o pai e o irmão, que estão sempre ao seu lado. Cuida da casa nos finais de semana e mantém a união da família desde que sua mãe falecera, há 7 anos.

Esse trágico episódio de sua vida não costuma comentar muito, somente com as pessoas que mais se sente a vontade, ela se viu “sozinha” em uma época em que mais precisava de sua mãe.

Tudo ocorreu praticamente do dia para a noite, uma forte dor de cabeça, diagnósticos errados, internação, exames, um aneurisma e, enfim, o que ninguém poderia imaginar. De repente Sônia se viu sendo a única mulher da casa. O pai desolado, o irmão mais novo (na época com 19 anos) para acalentar e uma falta imensa do pilar que sustentava a família e o lar.

O começo foi difícil, a adaptação de 4 para 3 pessoas foi demorada, não tocavam no assunto, não paravam para pensar juntos, cada um parecia conviver com a dor separadamente e discretamente. Sônia, na época, sentia a obrigação de trazer de volta uma rotina que os segurasse, que desse um sentido a vida destroçada que estavam levando, por isso, sufocava seus sentimentos em prol de um bem estar ilusório para sua família.

Hoje todos vivem bem e muito unidos, mas quando Sônia olha para trás sente que perdeu não só sua mãe, mas uma vida, na verdade ela sente que se perdeu. Sente que se ela ainda estivesse ao seu lado, muitas coisas teria feito, talvez a sua vida profissional teria tido um outro fim, muito mais proveitoso, pois teria força para lutar, teria motivação para conquistar seus sonhos. Talvez hoje, Sônia não se sentiria uma espectadora da vida, mas sim, desfilaria em um dos carros alegóricos, fantasiada de alegria e satisfação, por saber que soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe ofereceu.

* O nome do personagem foi trocado para preservar a sua identidade.

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