Por SUZANA VIER

Aos 21 anos, Fernanda* está ávida por férias. Não vê a hora de esquecer o uniforme e se entregar ao colchão.

“30 dias, meu Deus, vou des-can-sar. Às vezes até parece que trabalho há 20 anos”, pensa a jovem comerciária no primeiro dia de férias.

Florianópolis foi o destino escolhido por cinco dias. Hotel à beira-mar, conseguido por uma amiga a um preço excepcionalmente baixo, passeio de barco, muito peixe e sol. Nestes dias, Fernanda se sentiu visitando o paraíso.

Na volta, poucos dias depois, ela já engatou um passeio mais radical: um dia no Hopi Hari (parque de diversões).

Ser despenteada pela montanha russa e ficar com a boca seca de tanto gritar eram sensações maravilhosas para quem estava acostumada a estar minuciosamente arrumada para atender os exigentes consumidores de uma rede de supermercados do ABC (SP).

Hopi Hari vencido, chega a hora da balada. Quinta-feira à noite, vestido justo como dificilmente costumava usar. Fernanda tem cabelos compridos, pretos, brilhantes e, especialmente naquele momento, bem penteados. A maquiagem leve realça o rosto moreno e delicado.

Fernanda vai com uma amiga, mistura de vizinha e irmã. Ao chegar em São Paulo encontra as outras amigas, todas animadas para a noite de pop-rock e muita paquera. A noite promete e cumpre. Às três e meia da manhã, termina a balada, nenhum paquera surgiu, mas a música, a atmosfera descontraída do lugar e a alegria das amigas garantem uma boa noite de festa.

Depois disso, uma visita às antigas amigas de escola, passeios no shopping e 30 dias se passaram como um raio. “Rápido demais, nem senti”, lamenta.

Mas, logo que voltou a trabalhar, simplesmente desapareceu.

“Não, não posso mais sair com vocês. Tenho que trabalhar no sábado e no domingo. Agora só nas próximas férias ou quando minha folga coincidir com um domingo”.

A jovem que conheci nas férias é bem diferente da pessoa que encontro agora. A Fernanda que estava de férias em novembro era alto-astral, animada e feliz. A Fernanda que entrevisto parece preocupada. É mais adulta, ressabiada com o futuro, especialmente com o risco de demissão e problemas de saúde.

Aos 21 anos, Fernanda já está há quatro no comércio e sem direito a domingos desde os 17 anos, quando começou sua vida economicamente ativa num açougue em Santo André, onde mora e trabalha.

“Meu primeiro emprego prejudicou a escola, perdi dois anos porque só a cada 20 dias eu tinha uma folga no domingo. Nessa época eu era muito nova e não sabia lidar com as exigências sem sentido que me faziam no trabalho.”

De caixa de açougue, a jovem passou a operadora de caixa de uma rede de supermercados do ABC.

No supermercado, além de trabalhar dois domingos por mês – trabalha um e folga outro -, só consegue a folga relativa ao domingo trabalhado depois de dez dias e durante a semana, quando a empresa quiser.

“Como é a vida com poucos domingos pra você?” Pergunto.

“É horrível, não só ficar sem o domingo, mas sem o fim de semana. É muito cansativo. No domingo, minha família almoça junto. Minha mãe vai pra casa da minha tia, passeia, né! Eu já perdi muitas vezes casamentos, viagens por causa desse trabalho no comércio”.

Fernanda, como operadora de caixa, trabalha seis horas diárias e não tem horário fixo. No final de cada semana, a empresa passa a escala da semana seguinte.

“Parece bom trabalhar seis horas?”, questiono.

“Mesmo sendo seis horas e meia de trabalho é cansativo porque é uma hora e meia para chegar ao trabalho e mais uma hora e meia pra voltar. É muito desgastante.

Depois temos pressão dos chefes. Não dá pra ir ao banheiro sem autorização, tem que esperar… A pressão na nossa cabeça é muito grande. É cliente nervoso e mal-educado, aí tem os chefes. Eu tenho cinco superiores. Ninguém defende a gente.

Trabalhando seis horas, eu tenho direito a quinze minutos de descanso, que às vezes eu só vou tirar quase às13h, sendo que eu saio às 14h”.

Mesmo tendo apenas 21 anos, a saúde é atualmente uma grande preocupação para Fernanda. Dois médicos estão agendados: o vascular para ver as dores e inchaços nas pernas e o ortopedista para cuidar das dores nas costas.

“A maioria de nós tem problemas de saúde. Estamos exaustas. Uma moça tá afastada há três anos com problemas na coluna. A outra faz fisioterapia”.

“Mas vocês não têm nenhum tempinho pra fazer um alongamento?”

“Que nada, o máximo que a gente pára é pra ir ao banheiro e beber água, dependendo do movimento. O caixa nunca pode parar. Com isso tudo, percebi que já não tenho mais paciência com nada. Mal voltei de férias e já estou com os nervos à flor da pele. A gente é agredida moralmente no caixa e não pode responder à altura, se não você é que é repreendido”.

“De que tipo de ofensas vocês são vítimas?”

“O que mais acontece é o cliente jogar o dinheiro. A gente entrega a mercadoria na mão e alguns clientes jogam o dinheiro”.

“Há movimento no supermercado aos domingos?”

“No que eu trabalho, a maioria vai pra comprar pão, um refrigerante, um sorvete… É como se fosse uma padaria pra eles, não é pra fazer a despesa do mês”, explica Fernanda.

Apesar do cansaço e um certo pessimismo com a vida profissional, especialmente o salário de R$ 548,00 e o ambiente de trabalho muitas vezes hostil, Fernanda espera ter forças internas para realizar o sonho de cursar Biomedicina e depois comprar sua própria casa e de preferência nunca mais trabalhar aos domingos. Espera ser em tempo integral a Fernanda dos dias de férias.

* O nome foi trocado para preservar a identidade da entrevistada

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