Por FELIPE MODENESSE

Entro no vagão como que por sucção. Depende quase nada de minha vontade. São 18h30 de uma sexta-feira no embarque da estação Santa Cecília do metrô de São Paulo.

As pessoas se seguram. Empacotam-se para chegar ao destino. Agarram-se a outros e a estruturas metálicas próprias para segurar, espalmam o teto do vagão. Os que não conseguem, empurram outros pelo movimento do trem, depois que a porta automática definiu o contorno do bolo humano. Apertam, invadem, incomodam o espaço alheio.

Quando o bafo já está humano confuso de odores e calor, a próxima estação chega. Nada além de frascos de ar fresco entra no vagão. Ninguém está com a pressa suficiente para encarar o aperto.

Na estação central da Sé, boa parte do rebanho sai por um lado do vagão. Reforço chega pelo outro lado. Gente nova, ares novos e, logo, o mesmo ar tomado pelos vapores humanos. Os limites do outro são invadidos pelo olhar, pelo cheiro, pela existência física.

Muitos rostos não escondem o cansaço da semana. Muitos olhares estão pasmados numa suspensão anímica. A condição humana parece estar pendurada no vagão. Algumas pálpebras apenas se fecham.

Consigo sair na estação seguinte, Brás. Respiro um ar relativamente gelado de verão. Não satisfeito com a vivência, pego o trem no sentido oposto e volto para a Sé. Na plataforma de embarque fixo meu posto de observação.

A respiração dos vagões. Bafos de gente saem e outros tufos são inalados para dentro. O trem prenhe de emoções acelera. Logo o próximo chega. Expira um tanto de pessoas, que vai se dispersando aos poucos, até a retomada dos rumos particulares. Inspira outro tanto da multidão que espera. Para um mesmo trem, cada estação é um ciclo respiratório de caminhos humanos.

(Nesse momento, reconheço três jovens em plena comunicação de sinais manuais ao lado. Percebo a conversa silenciosa, cujo significado me escapa.)

Todos levam algo. Os limites dos corpos ficam expandidos por bolsas, sacolas, mochilas, pastas, violão, apostilas, livros, revistas. As pessoas carregam (são) suas particularidade e seguem do único sentido do trem para seu sentido único. Percebo as particularidades dos objetos e dos humores, mas não compreendo. Também desconheço os destinos, mas sei que são bem definidos e singulares.

Os detalhes individuais são sinais de vidas bem definidas, mas intangíveis ao meu olhar. Tal qual os sinais dos mudos ao lado. O (um) significado me escapa até que atenção especial seja aplicada a cada singularidade chamada vida.

Abandono o posto.

Na outra linha de metrô, a norte-sul, procuro outras narrativas sem personagem, emergidas na profusão complexa de caminhos. Inspirado pelo vagão, ouço diferentes sotaques, entonações. Os olhares não se cruzam, irradiam feixes de personalidade indecifráveis.

Na estação seguinte, chega uma nova turma. Em instantes, seus sinais particulares confundem-se aos tantos outros. Desço na próxima, Luz. Expirado.

Pego o trem no sentido oposto e volto para a estação Santa Cecília. Antes de descer, o jornal aberto de um homem mostra uma caricatura com o título “Sinais Particulares”. Às 19h30 saio para a rua e continuo um caminho singular, um pouco mais nutrido de sinais particulares da rotina paulistana.

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