Por LUCIANA TADDEO

— I hate yooou! I haaaate you.

Hein?

— I haaaate yooou! You are not my mother!

O segundo grito me desperta do sono que ainda nem chegou ao estágio REM. Já passa da meia noite, e os gritos chorosos femininos continuam penetrando pela fresta das portas que conjugam meu quarto ao do lado.

Viro de um lado para outro na cama. “Volta sono, volta!”, mentalizo. Nada. Estou desperta, apesar de cansada. Foram cinco horas de viagem de São Paulo até Miami, onde ficamos seis esperando a conexão do vôo de mais duas horas que nos levaria para Montego Bay, na Jamaica.

— Eu odeio quando ela fala comigo assim – reclama a mãe, com um carregado sotaque irlandês ou inglês, segundo minha avaliação.

— Parem de gritar! – intervém uma voz masculina, tentando apartar a briga.

— Eu te odeio! – diz a menina, revezando com um choro histérico uma espécie de grunido de ódio, que me assusta um tanto.

A mãe responde em tom descontrolado. Mas o que é isso? Esses estrangeiros não têm educação?

O pai se manifesta novamente, desta vez menos calmo:

— Parem de gritar!

A porta bate. O pai começa a conversar com a garota, que não pára de chorar. A mãe deve ter saído do quarto.

— Pela primeira vez na minha vida, eu tive vergonha de você, minha filha.

– Eu odeio ela, odeio – rebate ela, com a voz embargada pelas lágrimas.

Tento entender a razão do comentário, mas neste momento a conversa se desenrola em volume mais ameno e não consigo mais acompanhá-la. Quando finalmente consigo voltar a um estado sonolento, a mãe volta ao quarto. A discussão recomeça com um volume exagerado.

— Você está passando vergonha – repete o pai, já mais alterado-
Vá para o banho!

— Não, eu não quero ir.

— Georgia, vá para o banho!

O telefone toca. Indício de que não sou a única incomodada com o episódio.

— Shhhhhhhhhhshh – faz o pai, que aparentemente não atende – deite e se acalme.

— Nooooooooooo – retruca a menina.

— Pare de gritar! – insiste o pai, ainda mais irritado.

— Gorgia, vá para o banho.

— Vá para o banho, obedeça a sua mãe – apóia o pai.

— Vá para o banho – grita, impaciente, uma voz de criança, que até agora não havia se pronunciado. Provavelmente o irmão.

— Se você não for, vamos chamar uma ambulância. Você precisa de uma lavagem estomacal.

— Não pai, nãoooo! – diz ela, presa no choro ininterrupto.

— Shhhhhhhhhhshh – insiste o pai.

A gritaria se apazigua. Ouço sons de passos. A menina chora. Imagino que esteja sendo arrastada para o banheiro. Uma porta bate. Completamente sem sono e já de mau-humor, mas ao mesmo tempo intrigada com os acontecimentos da habitação ao lado, desligo o ar condicionado e grudo minha orelha na porta para escutar melhor os diálogos.

— Georgia, não vomite aí!

Georgia chora e grita. Ouço passos mais rápidos e um grito de desespero.

— Pai, não bata nela – interveio o garoto.

— Entre no banho – berra o pai, já sem o menor sinal de autocontrole.

Ando pelo quarto, inquieta. Devo bater na porta? Ligar para o quarto ao lado? Para a recepção? Para a polícia?

— Você está estrangulando ela, pai!

Meu deus do céu! O que está acontecendo? Pego o telefone para ligar para a recepção. Numa dessas, você é cúmplice de assassinato.

Mas, após um momento de hesitação, resolvo não o fazer. Em briga de família se mete a colher? Mais uns 20 minutos de apreensão e o choro da menina se acalma. O menino se cala. A mãe aparta :

— Todos já estivemos nessas águas alguma vez.

São duas da manhã. O pai, já mais calmo, convoca.

— Vamos para a cama.

Tento obedecer também, mas não consigo. Ao meu lado, meu irmão, que chegou a acordar por um breve instante no clímax da discussão, dorme como se nada tivesse ocorrido. Mas meu sono perdido, consigo encontrar só muitas páginas de um livro depois.

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