Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

Epifania:
(Manifestação ou percepção da natureza ou do significado essencial de uma coisa; apreensão intuitiva da realidade por meio de algo geralmente simples e inesperado, segundo o Houaiss)

Ela tem 6 anos, e vacila nos credos. Ora é fiel admiradora de Peter Pan e sonha em ser levada aos seus braços à Terra do Nunca, ora acha tudo isso uma bobagem de criança.
— Papai Noel existe, mamãe? A Ingrid disse que são os pais que dão os brinquedos para as crianças.
— Ah, isso é uma coisa que você é quem tem de concluir. Não sou eu nem ninguém que vai te dizer o que existe ou não.
Mudou de assunto. Ao que me parece, concluiu que é bom por enquanto que Papai Noel exista.
— Pra você e pro papai peço os brinquedos mais baratos. Pra ele, o mais caro, já que é ele quem fabrica e traz.
Esperta, sim. Mas vai além. Percebo, nas entrelinhas, nos seus olhos, a filha carinhosa que quase sempre é. Ela também conclui que acreditar em Papai Noel faz bem para seus pais, que insistem na figura do bom velhinho. Por eles, talvez, ainda crê.
 
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Pois foi justamente após visita à casinha do dito cujo, numa rua dos Jardins, que ela me deu, talvez, o mais bonito presente de Natal que já recebi na vida.

Do outro lado da rua, longe do burburinho dos pequenos bem vestidos, crianças de pé no chão disputavam num farol a atenção de adultos dentro de seus carros. Vidros hermeticamente fechados.

Percebo seu olhar indo naquela direção. Ela me segura no braço.

— Mamãe, sabe aquela boneca repetida que eu ganhei da minha madrinha? Não precisa trocar ela, não, mamãe. Vamos dar para uma dessas crianças? Eu já tenho tantas bonecas mesmo.

Vibrei. Fiquei emocionada. Percebi naquele rompante de generosidade uma manifestação importante de seu processo de amadurecimento. Justo ela, que sempre relutou em se desfazer de seus brinquedos… Agora, sem que eu precisasse dizer nada, abriu mão de trocar a boneca.

— Muito bem, minha filha! Adorei sua idéia! Amanhã a gente pode sair pela cidade e procurar alguma menina pra gente dar o brinquedo.

Já em casa, sacolinhas de bala previamente preparadas na véspera nos esperavam na mesa da sala de jantar.

— Amanhã pegamos os saquinhos de doces, mais a boneca, e vamos para a rua fazer a alegria de algumas crianças, combinado?

— Oba! Muita criança vai ficar feliz, não é?

— Isso mesmo.
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Na tarde do dia 24 de dezembro, um dia quente de verão paulistano, estamos nós duas, mais meu caçula, em busca de crianças que habitam viadutos, ruas e avenidas. Não foi difícil acabar com os saquinhos de balas e lembrancinhas. Mas a boneca não poderia ser dividida com vários. Tínhamos de achar apenas uma menina, solitária, para evitar brigas.

Difícil missão. Rodamos muito, e nada. Em nenhum momento, porém, pensei em desistir.

— Mamãe, olha lá, uma menina com sua mãe, mas ela tá com o irmão, e agora?

— Humm, deixa eu pensar… Ah, já sei, vamos tentar achar por aqui uma lojinha e comprar algum presente para o garoto também.

E lá fomos nós.

A meia-porta de uma loja indicava que o estabelecimento estava prestes a fechar, pois já eram quase 6 da tarde. Parei subitamente e pedi à vendedora que nos atendesse. Ela nos mostrou carrinhos e bolas, ficamos com um exemplar de um caminhãozinho laranja e azul.

Corremos de volta ao ponto onde estavam as crianças, mas elas já haviam deixado o local. A cidade começa a ficar assustadoramente vazia.

— Ah, mamãe, que pena, e agora, o que vamos fazer com os brinquedos? Queria tanto dar pra alguém hoje, porque é Natal… (já chorosa…)

— Fica calma, tenho certeza de que vamos achar alguém. Se aqueles sumiram, é porque talvez não precisassem tanto. Vamos procurar mais um pouco que eu sei que vamos achar as pessoas certas.

Eu tinha mesmo plena convicção disso naquela véspera de Natal.

As voltas de carro e o calor derrubaram meu pequeno, que dormia tranqüilo em sua cadeirinha. Mas nós duas nos mantínhamos atentas, em busca da menina perdida.

Muitas voltas depois pelo nosso bairro e adjacências, resolvo ir um pouco mais além. Foi neste momento que avistei um Papai Noel junto ao um grupo de pessoas, homens e mulheres, em volta de dois carros, mais algumas crianças.

— Olha lá, o Papai Noel!! Acho que ele está esperando os nossos presentes, gritei!

— É mesmo, mamãe, vamos lá!

Tive de fazer um longo retorno para atingirmos o ponto, mas por nada deste mundo perderíamos aquela turma.

Descemos do carro e logo vi que se tratava de um grupo de voluntários, distribuindo lanches e brinquedos a crianças de rua.

Papai Noel estava longe de nós a essa altura, conversando com uns pequenos. Aproximei-me de uma moça e expliquei que tínhamos dois brinquedos para doar. Seus olhos vibraram.

— Puxa, que bom, estamos mesmo precisando de doações. Daqui vamos ainda para o centro de São Paulo, lá tem tanta gente nas ruas. Veio mesmo a calhar.

Minha filha se encarregou de explicar do que se tratavam os brinquedos. Depois de nos despedirmos da moça, com votos de um ótimo Natal, e voltamos ao carro. Já lá dentro, Papai Noel nos avistou, a moça explicou para ele o que tínhamos ido fazer lá. Ele foi ao carro de lanches, encheu a mão de bala e correu ao nosso encontro, suando, ofegante.

— Feliz Natal, Feliz Natal!!! Olha umas balinhas pra você, menina!

— Oba, obrigada, gritou minha filha.

Nisso, o pequeno acordou, e, com seus olhos ainda embaçados de sono, viu Papai Noel se afastando.

– Mamãe, olha o Papai Noel!! E virou para o outro lado, sonolento.

— Viu como deu certo? Sabia que a gente ia encontrar alguma coisa bacana, não te falei?

— É verdade, mamãe… E você tá certa também quando diz que quando a gente dá pros outros ganha alguma coisa em troca também. Olha as balinhas que eu ganhei do Papai Noel!

Uma pequena epifania, foi isso o que nos aconteceu. Lembrei-me de uma crônica maravilhosa do grande Caio Fernando Abreu que fala justamente disso (Pequenas Epifanias). A situação é outra, mas o sentido é o mesmo. Amor. Algo breve, simples, mas que nos marca para sempre.

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