Por SUZANA VIER

Enigma

A voz de Norvan irrompeu o silêncio da sala escura:

– Um mestre ensina a seus discípulos: “se disseres que o cajado é curto estarás omitindo o fato. Se disseres que o cajado é grande estarás faltando com a realidade”.

– Podem ir voltando da meditação, cada um do seu jeito… Me digam, o que sentiram desse koan?

Na minha cabeça o koan que Norvan contou deixou uma grande confusão. Koan é uma história que se passa entre um mestre e um discípulo e que muitas vezes não tem pé nem cabeça para nós ocidentais, mas trazem importantes ensinamentos orientais.

– E aí o que vocês sentiram, provoca novamente Norvan?

Eu sinceramente só pensava numa coisa: o que é realidade? De resto só havia confusão em minha mente. “Que história mais estranha: se digo que o cajado é curto sou omissa, se digo que é grande falto com a realidade”.

Fiquei atenta aos outros participantes da meditação da quinta-feira, a famosa meditação que tento, tento, tento participar, mas em geral acabo faltando em função de outros afazeres. Mas naquela quinta-feira à noite, 14 de fevereiro, estava eu lá, meditando e depois da meditação sendo desafiada a refletir de forma não-ocidental para captar algo da sabedoria oriental.

Foram quarenta minutos de discussão. Finalmente o veredicto, às 22h40, me deixa feliz com o novo aprendizado.

Todo o segredo não estava no conceito de realidade, como eu inicialmente imaginei. Estava sim no tal do cajado. O cajado era a chave da questão.

Foi um “gran finale” para uma noite de muita luta com os meus pensamentos, ou macaquinhos como o médico especialista em medicina oriental (chinesa) Norvan, costuma chamar os pensamentos insistentes que não nos deixam serenar a mente.

Norvan é um homem de meia-idade, magro, de estatura média, bigode grisalho, cabelos meticulosamente penteados para trás, jaleco branco cobrindo uma camisa social de manga longa branca e gravata escura, óculos e o principal: uma feição tranqüila, alegre e muitas vezes, durante os koans, faceira também. Facilmente o médico ganha ares de moleque arteiro quando os participantes da meditação não conseguem desatar os nós dos koans.

Macaquinhos

Às 21 horas, a luz da sala de meditação, que fica no fundo da clínica dos médicos Norvan e Lílian, se apagou e todos entraram um a um no tatame principal e sentaram nas almofadas de meditação. A posição de lótus, mais indicada para meditação, não é fácil de fazer e manter, então mantenho uma posição mista, meio de aluna de educação física de segundo-grau, coloco a mão esquerda sobre (por dentro) a direita e uno os polegares das duas mãos. A coluna, tento manter reta, como se um fio me puxasse pra cima. Os olhos, mantenho a 45°, abertos e direcionados para um ponto do tatame da sala.

Inspiro e expiro tentando dar tranqüilidade ao corpo e buscando particularmente serenar a mente. Mas a luta é árdua, os pensamentos não param, de um tema a mente passa pra outro, às vezes conectados, às vezes não. Penso numa pessoa, de repente em outra. E os pensamentos não param. “É… os macaquinhos estão agitados hoje”, penso diante da dificuldade de esvaziar a mente e simplesmente não pensar.

Equilíbrio

Meditar é uma das coisas mais simples e complexas desse mundo…. é controverso mesmo. Meditar é não-pensar, é criar um vazio na mente. São segundos valiosíssimos que buscamos para entre outras coisas ter tranqüilidade, concentração, harmonia e domar a mente e os pensamentos.

Mexo o pescoço que já dói, a perna formiga, adormecida. Então mexo uma, mexo outra e nada de esvaziar a mente, pelo contrário ela está lotada. “Se a mente tá alvoroçada é um excelente motivo para conseguir meditar e dar um tempo em tanta conturbação mental”, me incentivo mentalmente.

Parto para uma nova estratégia: inspiro em quatro tempos e expiro em quatro tempos. Aí finalmente a situação melhora e toma prumo. Consigo uns milagrosos segundos de intervalo entre um pensamento e outro e fico feliz. “Foi um dos piores dias para meditar”.

Ao meu lado e em frente pessoas meditam, ou imagino que meditem. Muitas vezes os comentários pós-meditação dão conta de que as pessoas passam pelo mesmo problema que eu: os pensamentos insistentes.

A sala de meditação é um oferecimento dos donos da clínica que sabem muito bem as doenças físicas e emocionais que os pensamentos alvoroçados e a mente podem muitas vezes causar. Eu mesma sou constantemente vítima de uma perseguidora labirintite e para me livrar dela me entrego, quando posso, à meditação em casa, ou naquela bela sala, com parede vermelha de um lado, onde também fica um grande espelho, piso de taco novíssimo, velas para iluminar a escuridão da sala durante a meditação e pequenos armários para guardar sapatos, bolsas e demais acessórios de seres estressados como eu.

A alguns minutos de sair com as amigas para dançar, já que estava beirando às 23 horas, o aprendizado sobre o cajado nem curto, nem cumprido e os poucos segundos de serenidade garantiram muita energia para dançar até mais de 2 horas da madrugada e ter mais tranqüilidade no dia seguinte, quando também tentei ser uma boa domadora dos leões, em que muitas vezes se transformam meus pensamentos.

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