Por LUCIANA TADDEO

Chegamos a Miami. Escolhemos a fila mais curta entre os postos do controle de fronteira, para ganhar tempo. Tínhamos apenas uma hora antes do embarque para São Paulo. Não serviram refeição no vôo vindo da Jamaica e ainda teríamos que almoçar.

Nos atendeu Martinez, um homem com muito gel no cabelo, que tinha um castelhano muito claro e sorriso fácil. Perguntou nossas ocupações no Brasil e por que estávamos entrando nos Estados Unidos. Confortados por seu tratamento cordial, respondemos às perguntas sem receios. Depois que todos pressionaram seus polegares direitos e esquerdos contra um vidro que faria a leitura de nossas digitais para o computador, Martinez nos avisou, sem alteração no tom de voz, que não conseguia conferir os dados de um dos passaportes o computador e, com um ar de “não é nada demais”, pediu que o acompanhássemos.

Seguimos o mexicano pelo corredor por onde passam as pessoas que já tiveram autorização para entrar no país, e em cuja parede placas marcavam “no waiting”. Entramos em uma sala de acesso restrito, segundo o adesivo colado na porta. “Advertência: Espaço de Inspeção dos Estados Unidos”

Dentro, cerca de quarenta pessoas visivelmente cansadas esperavam em cadeiras distribuídas desordenadamente em frente a uma fila de computadores com monitores de tela plana equipados com câmera, e policiais. Encontramos quatro assentos juntos e nos sentamos. O chão estava sujo por um salgadinho amarelo de cheiro forte. Em todas as paredes havia câmeras, um espelho retrovisor redondo, desses utilizados na porta traseira interior dos ônibus municipais, e placas com proibições. “No laptop. No cell phone. No PDA.”

Uma policial vestida com um uniforme igual ao de Martinez, azul-marinho com o distintivo da polícia de fronteira no braço e pistola na cartucheira, circulava com uma prancheta entre os braços, anotando dados dos passageiros retidos.

– Então vocês estão no vôo noturno?
– Não, nosso avião sai em uma hora – respondeu a pessoa que me acompanhava, queixosa com a desorganização – e corremos o risco de perder o vôo.
– Se acalme, temos tudo sob controle – contestou a policial, sem dar espaço para mais argumentação.

Á minha frente, um menino pintava desenhos em um bloco com lápis de cor ao lado de sua família, negra, que incluía um homem, uma mulher e um bebê de colo. Um homem sentado em uma cadeira de rodas com o logo da American Airlines tinha gesso em um pé, bota no outro e as muletas apoiadas em uma cadeira vazia. Notei um homem que usava um casaco de Barbados e um senhor de traços árabes. Nenhum ali parecia norte-americano ou europeu. Será que Martinez foi alguma vez barrado na fronteira?

– Oh my God! – exclamou a moça morena de aproximadamente 20 anos, seguramente latina, que estava sentada ao meu lado, ao conferir o horário da sua passagem para Nova Iorque.

Vinte minutos depois, percebemos que nossos planos de aproveitar nossa hora livre não seriam concretizados. Olhamos para a cara um do outro com cara de “o que vai acontecer?” Não tínhamos nada a fazer além de sentar e esperar.

Fui até a policial e perguntei onde era o banheiro (precisava ir desde que saí do avião). Que seguisse pelo corredor e entrasse na segunda porta á direita, orientou, sem muita simpatia. Passei por salas com uma mesa com uma cadeira de cada lado antes de chegar na porta indicada. Parado à frente desta, um homem me pediu que esperasse, porque sua filha estava utilizando o banheiro. Apenas quando os dois se afastaram, compreendi o motivo da vigilância: a porta não trancava. Do corredor podia-se ver todo o interior do banheiro por uma janela de vidro com grades, na porta. Que passasse só não conseguia ver uma pequena área protegida por uma parede, onde estava o vaso sanitário. Onde seria a caixa que armazena a água da descarga, havia uma pia tão pequena na qual mal se podia lavar as mãos com a água que saía mediante a pressão contida de um botão. O lugar foi construído para que a pessoa que utilizasse o banheiro não pudesse fazer nenhum movimento que não fosse exposto. A parede que separava a privada do resto do banheiro era tão estreita que não era possível abaixar as calças sem que as pessoas do lado de fora vissem os joelhos e a cabeça dobrando.

Em frente a essa parede de azulejos havia um banco de madeira com uma argola em cada extremidade e, sobre ele, um rolo de papel-toalha.

As orientações em inglês que estavam na placa do lado de fora justificava a insalubridade do ambiente: Todos os prisioneiros deveriam permanecer algemados todo o tempo em que estivessem no banheiro e este deveria ser inspecionado a cada cinco minutos. Só então intuí que as salas por que passei no corredor eram de interrogatório! Indignada com o tratamento, contei a situação aos meus companheiros de viagem, na sala de espera. A essa altura, eles já tinham comunicado à supervisão do Controle de Fronteira que iríamos perder o vôo e o passaporte retido foi do final para o topo da pilha dos que seriam verificados.

Ao sair da sala, de volta ao grupo dos passageiros “normais”, lemos outra placa da Proteção de Fronteira dos Estados Unidos, intitulada “Nós somos o rosto da América”, na qual estavam listados os compromissos com o viajante. E depois de ler o primeiro item, “tratá-lo com cordialidade, dignidade e respeito”, não tínhamos nada a fazer além de rir.

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