Por WAGNER HILÁRIO

“Onde mora o trem?”, pergunta a criança. “No trilho”, responde o adulto, depois de pensar por um tempo. O menino, no conforto do carro, gosta mesmo é do trem, centopéia cujas patas de ferro giram e gritam estridentes pelo pretérito no futuro. Quando vê um trem, o menino, deslumbrado, fala alto: “Olha o trem, mamãe. Olha o trem, papai”.

Gosta, mesmo sem entender as notícias do rádio do carro… “A cidade vai parar em 2012…” “A única solução é a paciência…” “Não há dinheiro, como na Europa e nos Estados Unidos, para investir em transporte coletivo…” Não dizem que o melhor remédio para porre é tomar outra? Então, é melhor comprar mais carro, de preferência com ar-condicionado, para padecer no inferno de buzinas, respirando a frescura seca da artificialidade, com gosto de poeira refrigerada.

A mãe e o pai prometem à criança: “Vamos andar de trem, filho. Vamos pegar um fim de semana, e você vai conhecer a casa dele e vai dar uma volta nele com a gente.” Ele não sabe o que é fim de semana. “É fim de semana, já?”, pergunta, todo dia.

O trem prometido é metrô, transporte subterrâneo, urbano, visão das trevas que abre horizontes na superfície. O caminho, às vezes, precisa ser triste, para que o destino seja alegre… Mas quem tem paciência para isso?

O pai do menino mesmo, época dessas, ficou sem carro. Cansado… A falta de “casas de trem” na cidade o fazia subir-descer de ônibus, subir-descer de metrô. Demorava muito. Trabalhava sem pique. Comprou um novo automóvel, parcelou em mais tempo do que tem seu filho de idade. Colocou um som legal e um ar-condicionado, que seria melhor se não lhe atacasse a rinite e a sinusite.

Mas e o fim de semana?… Enfim, chegou, embora tenha demorado bem mais do que cinco dias.

O menino arregalou os olhos, quando, da escada rolante, avistou o réptil rastejante e metálico trovoar na estação. Riu, franzindo os lábios, como se quisesse reduzir a um carrinho o vagão de alegria que lhe impingia o deus Trem. Os pais se sentiam Papai e Mamãe Noel.

Dentro do metrô, o menino tentava enxergar o barulho pelo vidro. Depois de alguns minutos e algumas estações, a monotonia da escuridão e a cara vazia das pessoas cansaram-no. “Calma, o sol vai chegar…”, consolaram-no. “O sol?!”, disse, entusiasmado com a possibilidade de o trem trazer-lhe uma nova surpresa. O sol veio com a superfície e, por algum tempo, ficaram os dois, menino e sol, radiantes e em silêncio, trocando luz pelo vidro do metrô.

Ele não parecia contemplar o astro. Apenas digeria a experiência, talvez nem tão fantástica assim, de andar na criatura que via, vez ou outra, pela janela do carro, nos pontilhões metroviários da cidade.

Quando o trem chegou à estação em que desceriam, ele não fez escândalo, não impôs resistência. Parecia satisfeito. Se ficasse mais, é certo que logo estaria enfadado. É assim também no carro. Talvez por isso, todo fim de semana, quando o pai liga seu “possante” novo para ir com a família à casa da sogra, o menino pergunta: “Onde mora o trem?”

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