Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

Ele se espreguiça, dá sinais de que quer conversar, mas respeita o silêncio da passageira, ainda tímida, recém-chegada no carro.

Faz um comentário sobre o trânsito, tão difamado, desta cidade. Mas elogia, acha que está bom naquele começo de noite de terça-feira, em plena Avenida Paulista.

Tem um sotaque tão característico do paulistano da Mooca que chega a ser engraçado, lembra a passageira.

— Meu, esse fretado aí parado tá zoando com tudo, vê se pode…, fala arrastaaaado.

Pede licença para ligar o rádio. Tem o ok da moça. Sintoniza notícia.

A passageira revela que queria ouvir só uma musiquinha, mas impossível sair da Paulista às 18h30, em direção à Vila Olímpia, debaixo de uma garoazinha chata, e não ouvir nenhuma palavra sobre o trânsito de São Paulo.

“O trânsito de São Paulo – e seu efeito negativo sobre a qualidade de vida de todos os seus moradores – pode ser traduzido numa marca recém-atingida pela cidade: 6 milhões de veículos, quase um para cada dois habitantes. É de arrepiar. Na última década, a frota paulistana aumentou 2,5 vezes mais do que a própria população. Além de roubarem de cada cidadão horas que jamais serão recuperadas, os congestionamentos prejudicam a economia e queimam milhões de litros de combustível”, registra a notícia impressa.

Alguém consegue falar em outra coisa na cidade de São Paulo? Tirando a tragédia da menina Isabella, que ultimamente ocupou os noticiários, a maior capital do país é hoje um estacionamento a céu aberto. O maior do mundo, claro, como quase todos os números daqui.

Mais notícias pululam na sua cabeça:

“Na semana passada (não pergunte a ela qual), a cidade bateu sucessivos recordes de lentidão pela manhã: 149 quilômetros na segunda-feira, 155 quilômetros na terça e 165 quilômetros na quinta, o pior do ano. De 2006 para 2007, a velocidade média dos veículos nas ruas da capital caiu de 29 para 27 quilômetros por hora. São Paulo precisa adotar medidas corajosas, polêmicas e muitas vezes antipáticas para tentar desatar esse nó que nos sufoca dia a dia.”

Que preguiça…

Resolve perguntar o nome do taxista. Ele se apruma e diz que vai colocar uma musiquinha.

— Meu nome é Edson.

Já em casa, depois, ela conta que simpatizou muito com Edson. Ele lhe diz que tem 42 anos, duas filhas, uma de 20, outra de 13. É separado da mulher, professora de filosofia, há cinco anos.Já casou novamente, mas agora a ex lhe implora para voltar.

— Ah, mas eu não quero mesmo!. Ela me infernizou quando eu tava começando na profissão. Fui bancário, mas gosto mesmo é de lidar com gente diferente, saber suas histórias, observá-las aí no banco de trás…

Diz que odeia números, por que deveria continuar trabalhando em banco?

— Só se eu fosse maluco, porrrrra!!

E a primeira mulher, revela, tinha mesmo razão pra ter ciúme.

— Imagina, eu trabalhava de madrugada, pegava umas mina que eram garota de programa. Umas vezes até rolou alguma coisa, mas isso porque minha mulher já tava me infernizando, sabe?

A passageira dá corda à conversa. Ela pegou o táxi porque odeia dirigir. Quando não pode ir de ônibus, porque está atrasada ou cansada demais, resolve investir num táxi. Acha que merece esse cuidado consigo mesma de vez em quando. Conta que deixa de ir ao cabeleireiro, de comprar uma roupinha, só pra poder se dar ao luxo de pegar um táxi vez por outra.

— Eu a-d-o-r-o dirigir… ! Faço isso com o maior prazer, mesmo nesse caos que tá São Paulo… E eu adoro São Paulo, sabe? Esse mundo de gente, eu fico aqui e vou só ouvindo os papinhos aí atrás. Fora aqueles que gostam de ouvir, como você… é bom também, porque não é todo mundo que sabe ouvir, né?

E gargalha.

Sim, ela lhe diz, é verdade… quer saber mesmo é como ele consegue ainda ser gentil, dar passagem, não xingar, adorar dirigir…

— Ah, que é isso, moça, não sou santo, não… Mas tenho de ficar calmo, ué, senão eu infarto… e tenho minha mulher, minhas filhas, não dá pra enlouquecer com isso não. Mas eu tenho minhas teorias. Tem de tirar os fretado das rua. Olha aquele ali, vê se pode. Ele ocupa o lugar de um monte de carro, porrra!

Também acha que o paulistano devia ser mais solidário, sem dúvida. Perguntar pro vizinho pra onde ele vai de manhã.

— Será que não dava pra rolar umas caroninha, não? Claro que dá…!

E acha ainda que mais gente devia fazer como a moça, sua passageira.

— Você é consciente, deixa o carro em casa e pega táxi…

É, ela finge que concorda um pouco. Não é sempre assim, mas antes fosse…

Lembra de uma frase curiosa que leu: “A cidade gera mais carros do que bebês. São 800 veículos novos diariamente, número superior à média de 500 nascimentos.”

O arquiteto e urbanista Jorge Wilheim diz que para evitar diálogos radiofônicos como os ouvidos diariamente, a qualquer hora, em São Paulo, é preciso planejar e decidir. “Agir sobre o urgente e sobre o fundamental, nem sempre coincidentes”, pontifica.

Para Edson, basta tirar os fretado das rua.

Na cabeça da moça, vem um diálogo:

“Como está o trânsito, Mônica Poker?” “Parado. Já estamos novamente com 350 quilômetros de congestionamento. A Defesa Civil bloqueou o acesso ao centro e há muitos carros saindo”. O locutor exaspera-se: “Mas para onde vão?” “Parece que estão em busca de um lugar para estacionar.”

— Tá vendo essa maternidade aí? Um dia trouxe uma moça pra ter bebê, com o marido. Eles tavam tão desesperado que eu deixei eles e a mala ficou… Quando foi de madrugada, o meu celular tocou. Sorte que dei o número pra eles. Sei lá por que.. acho que foi porque eu fui com a cara deles. Daí eu fui levar a mala do bebê, né? Ah, fui, não ia deixar o cidadão sem roupa bem numa hora dessa… E pode passar, velho, não vamo briga por causa disso.. Vai nessa.

Duas ruas pra frente da gentileza de Edson, a moça desce. E deseja tudo de bom a ele. De coração, ressalta. Ele agradece, esticando seu cartão.

São Paulo, de repente, lhe pareceu menos chata, conta, com lágrimas nos olhos, lembrando da pequena viagem pelas ruas com este taxista tão gentil e tão paulistano.

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