Por SUZANA VIER

Enquanto tomava banho Regina* pensava “Tenho realmente que passar por isso?”.

O banho sempre foi uma espécie de terapia para a jovem, momento, um dos poucos ao longo do dia, em que pensava em si mesma, se dava atenção e refletia sobre a vida. Muitas vezes pensou “se o aquecimento global vier e houver falta d´água, estou perdida”.

Mas, naquele dia, uma segunda-feira quente e ensolarada, em pleno outono brasileiro, o banho foi triste e com os pensamentos voltados ao trabalho “tenho realmente que passar por isso”, latejava a mente, repetidamente, como uma dor de cabeça.

A dor que sentia era mais emocional que física: há cinco meses sentia-se mal no trabalho, não se via mais naquele lugar onde passava oito horas diárias. O motivo: algo que leva um nome novo, desconhecido de muitos, mas cujo procedimento é velho conhecido: assédio moral no trabalho, fato que ocorre quando pessoas em nível hierárquico superior usam de humilhação às vezes pública, às vezes em particular, para ferir os ânimos, a moral de seus funcionários.

Até pouco tempo, Regina nem sabia o que era assédio moral e agora era ela mesma era vítima daquilo. Amigas já haviam passado por esse tipo de humilhação, mas ela ainda não conhecia na pele.

Ainda no banho, os pensamentos evoluíam, mantendo os questionamentos pessoais “pra que ir lá, sentar no escritório e ter que olhar pra aquela pessoa que se acha no direito de fazer humilhações?”.

Derrotada espiritualmente, triste, parecendo carregar toneladas nas costas, Regina vestiu uma roupa, buscou uma bem alegre, um belo vestido branco, estilo grego, para melhorar o astral.

Pegou um terço em miniatura, colocou dentro da roupa, na esperança de ter a proteção dos céus e partiu para sua jornada.

Para quem sofre desse tipo de problema, o final de semana é a salvação e a segunda-feira, o calvário, porque, afinal vai encontrar a pessoa que causa pânico só de pensar em trabalhar.

A relação de Regina com os colegas de trabalho é boa, mas com a chefe realmente anda difícil: “No entanto, nada lhe dá o direito de cometer humilhações em alto e bom som”, reflete.

Regina já chorou, depois de uma conversa que começou pelos trabalhos do dia e terminou em críticas em alto e bom som e em tom pejorativo. “O problema não são as críticas, mas sim o modo grosso, rude e humilhante como são feitas”.

Ela chora sempre que lembra das agressões verbais e sutis pelas quais passa. “É tudo muito sutil, ela explica. Esse tipo de agressão de chefes contra funcionários é comum e se você não tomar cuidado pode levar a problemas psicológicos e até depressão. Se não soubesse que essa é uma prática comum, acharia que sou a pior profissional do mundo”.

Para o futuro, a jovem profissional espera ter forças para manter o emprego e ao mesmo tempo superar as mágoas não só com a chefe, mas com o próprio trabalho. “Quando isso acontece, você transfere também as mágoas para o trabalho em si, chega a pegar raiva do que faz”.

Quanto à forma de resistir a esse tipo de coisa, tem como lema: “Muita auto-estima para agüentar certas loucuras que acontecem nessa vida”.

* O nome da personagem foi trocado para preservar sua identidade.

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