Por Maria Lígia Pagenotto

Desaparecidos. Na cidade de São Paulo, existe delegacia especializada em gente que, de repente, sem que ninguém saiba exatamente por que, some sem deixar rastro. Alguns certamente por vontade própria. Outros porque têm distúrbios mentais e se perdem e outros, ainda, talvez a maioria, especialmente crianças e adolescentes, porque são vítimas de violência.

Em qual desses critérios para desaparecer se encaixaria Silvia? Por alguns dias, ela engrossou as estatísticas da Prefeitura de São Paulo, que contabiliza o desaparecimento diário de cerca de 30 pessoas. No Brasil, estima-se, 40 mil crianças somem por ano. Um número terrível, que dói. Onde estará esta gente toda?

Sílvia não é criança – tem 41 anos, é de Maceió, Alagoas, e veio para São Paulo morar com sua irmã e dois sobrinhos. Silvia queria viver e trabalhar em São Paulo. O serviço? Tanto fazia. O sonho de Silvia era mesmo morar na “maior cidade da América do Sul”, como dizia à irmã com orgulho.

Conseguiu. Logo que chegou foi indicada por um amigo da irmã para trabalhar num escritório de contabilidade.

Seria a recepcionista e secretária do lugar. Silvia logo se animou com a perspectiva de fincar raízes em solo paulistano. E, comunicativa, sorridente e prestativa, logo conquistou a confiança de todos. Também se empenhou como pôde no trabalho.

Só não contava que iria se apaixonar tão facilmente por um cliente do seu patrão. Muito menos podia imaginar que o moço, casado, esconderia dela esta condição por alguns meses. Quando não podia encontrá-la, dizia que estava viajando a serviço, o que quase sempre ocorria nos finais de semana. Ingênua, acreditava.

Será que foi quando soube do estado civil do rapaz que Silvia resolveu se perder pela cidade? Talvez, arriscam alguns no cochicho no corredor de um hospital.

Cabeleira farta na altura do ombro, Silvia é alta e magra. Tem a pele morena e traços que lembram os de uma índia. Seus olhos chamam a atenção: são cor de mel, grandes. . Um tipo que não passa despercebido. Tanto é assim que quando entrou de cadeira de rodas no pronto-atendimento do Hospital Bandeirantes, no bairro da Liberdade, em São Paulo, logo foi notada.

Ela vestia jeans, botas no joelho, uma blusa de lã marrom e estava largada na cadeira, pescoço dependurado para trás, cabelos em desalinho. Foi rapidamente atendida, passou pela triagem e encaminhada à sala de repouso, com soro na veia.

De longe, em outro box, um observador atento – um ouvido na história de Silvia, outro no paciente que acompanha – quer saber tudo sobre aquela moça cujo silêncio intriga enfermeiros, médicos e até então sua única acompanhante, uma mulher de uns 50 e poucos anos que com ela chegou ao hospital.

– Eu sou chefe da Silvia, pedi a ela que fosse ao banco na terça passada, fazer um depósito, e aí ela não voltou mais. Ficamos desesperados, buscamos em todos os lugares no entorno e nada da Silvia. Mas o depósito foi feito.

Passaram-se 10 dias e Silvia foi encontrada suja, com a roupa rasgada, olhar perdido, vagando em torno do prédio em que mora com a irmã. O porteiro, já avisado do sumiço da moça, a avistou e foi ao seu encontro. Ela nada dizia. Só olhava para o infinito. O homem, então, que tinha o telefone do trabalho de Silvia, ligou avisando que estava com ela, naquele estado.
 
A chefe foi buscá-la, avisou a irmã e levou-a logo ao hospital. Não sem antes passar em sua casa e dar um banho nela, trocar suas roupas. Tudo feito sem Silvia dizer uma palavra.
 
E assim foi que ela chegou ao Hospital Bandeirantes. Na cama, seus olhos fitam o teto, sempre abertos. Sua expressão é triste. Ela emagreceu, comenta a colega de trabalho, que depois de explicar pela terceira vez a uma enfermeira o que havia acontecido com Silvia, abre um papel toalha em suas mãos e mostra, para surpresa de quem olha, algum objeto.

– Olha o que estava na orelha dela quando o porteiro a encontrou.

– Nossa, isso estava na orelha dela?, pergunta a médica, assim como já perguntou o enfermeiro, a outra atendente etc…
 
Os amigos, vários, do trabalho e alguns vizinhos, e a família (a irmã e um dos sobrinhos) chegam ao hospital e se revezam em torno de sua cama. Todos olham o objeto, espanto geral. Alguns choram, outros a acariciam, a irmã suplica para ela falar, o sobrinho também. Outros a abraçam, com pena e carinho.

E Silvia se cala em sua mudez, olhos no teto, expressão triste.

A amiga arrisca que a decepção ao descobrir que o moço por quem se apaixonara era casado foi que provocou seu sumiço. A irmã duvida um pouco, mas diz que prefere que seja “só” isso, “só” uma depressão, do que algo mais grave.

No corredor, os amigos comentam sobre ela. Mas ninguém esclarece o que Silvia tinha na orelha. Silvia foi encontrada, mas parece ainda perdida em seu mundo. Calada, parece não ter forças nem para fechar os olhos, muito menos para falar e andar.

Onde estará Silvia?

Advertisements