Por Wagner Hilário

As meninas riem, lêem as notícias na tevê do metrô e brincam de super trunfo – na minha época, acho que só os meninos brincavam de super trunfo. São umas cinco. Estou curioso para ver os carros, acho que identifiquei uma Benetton do tempo do Piquet na mão de uma delas. Disfarço para não ser pego na bisbilhotice. Quando percebo que me flagram, finjo que elas são apenas um tropeço da minha visão e aponto o olhar para as janelas.

De repente, um senhor com bastante idade, rugas até na orelha, onde há também pêlos grossos como barba, provavelmente porque os raspa, levanta-se do assento e se aproxima das meninas com cara de menino levado. Estranho a atitude e temo que seja um pedófilo perigoso, que esconde sob a senilidade uma força que só os criminosos têm. Penso no que dirá às adolescentes e afio os ouvidos para desmascarar aquele velho tarado…

– Vocês estão no colegial? – diz com cara de vovô carinhoso.

Elas pensam um pouco, talvez porque a palavra colegial lhes soe estranha; afinal de contas, há alguns anos, colegial virou “ensino médio”. Não parecem nada constrangidas com a abordagem do velhinho. A verdade é que uns três segundos de silêncio depois da pergunta, duas delas respondem.

– Sim, sim, estamos no colegial.

– Então me digam que elemento é C-H-O-P2.

– Péra aí… C é carbono… – diz uma.

– Ó é oxigênio… – diz outra, atropelada pelas vozes menos vigorosas das colegas. – Espera! P…

– H é hidrogênio – mais uma mostrando conhecimento.

– Posso falar? – interrompe a assembléia química o velhinho.

– Pode – diz a mais preguiçosa da turma, que não havia identificado elemento nenhum.

– C-H-O-P2 é chopp.

As meninas explodem numa sincera gargalhada e batem palmas sem nenhuma vergonha para o bom velhinho, que pede silêncio enquanto ri constrangido pela homenagem em público que as jovens prestam à sua simpatia. Em seguida as portas do metrô se abrem, ele se despede e vai embora.

Advertisements