por FELIPE MODENESE

 

O nariz adunco suspende o véu. Tem ramos de flores amarelas e brancas como auxiliares a suportar… De onde estou sentado, consigo perceber os olhos fechados e já não espero o inchaço do peito. Não espero um sorriso ou um abano, mas algo interno sabe que há vida e ela ressoa.

 

        A imagem me faz lembrar o crepúsculo em uma serra no Alto do Caparaó, na fronteira MG-ES: a matéria, o perfil, junto à luminosidade do dia que finda ou principia…, compõem algo mais vasto do que alguma possível cadeia de palavras pode alcançar.

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        A voz solene do arcebispo de Botucatu, vestido de preto e faixa púrpura no ventre, abençoam, acomodam o sagrado no velório de Laurival de Luca. Enquanto isso, meus olhos tentam captar o que extravasa da dor da esposa, dos filhos e dos presentes que também orbitam sua vida.

O corpo e o sangue de Cristo é compartilhado, é acolhido e parece confortar alguns espíritos dilacerados pela perda, tremenda ainda que inevitável, dada a gravidade da doença.

        Os braços se projetam dos ombros e se encontram, pelas mãos, sobre o ventre. Grandes mãos. Limpas, confortáveis na aparência, aconchegantes. Instrumentos de trabalho. Mãos que partem deixando tantos paridos. As mãos de um obstetra experiente, de uma alma vibrante. Mãos que ajudaram a brotaram tantas vidas, tantos universos de possibilidades, inclusive a vida destes dedos que ousam prestar esta homenagem.

       

        “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, assegura o mestre Guimarães Rosa. Pois então, Laurival fica encantado no dia 21 de setembro, dia da Árvore, vésperas da entrada da primavera. Daqui uma semana completo meu aniversário. Há 27 anos, fui puxado por suas mãos, as mesmas que estão ali… encantadas. Serenas mãos sobre seu ventre irradiando satisfação.

Nunca conversamos. Nunca usamos palavras. Dissemos pelo grito e pelo silêncio.

Sempre ouvi de terceiros sobre sua bondade, atenção, compromisso, entusiasmo, seu brilho ao falar, ao transmitir coragem para as mães, seu encanto. Nunca de sua boca. Tantas vezes ouvi sobre como foi essencial aos três partos de minha mãe. Felizes partos e posteriores ao primeiro traumático. Foi força pura e confiança segura a mentes esgotadas pelo medo, a dor e o sofrimento.

Nunca conversamos, mas os berros retumbam em sua garganta encantada e brilham de modo especial nas mãos em paz.

 

Antes de sair, um aperto de mão à esposa, sentada ao lado do marido:

– Meus pêsames.

– Obrigada. Quem é você?

– Sou um dos rebentos do homem! – e disse meu nome e sobrenome.

Seus olhos ficam brevemente um pouco mais abertos, como se sua alma tivesse rapidamente inflado e extravasado por um cintilo do olhar:

– Jura?!… Nossa… Mas como ele tinha orgulho de ter trazido vocês três…

 

Trouxe sim. Não conversamos, mas nos comunicamos.

Enquanto sou rebento, ele é paz, confiança, mão para apertar e amassar. Posso imaginar sua felicidade ao me ver (assim como tantos outros…) vivo e gritando. Posso imaginar seu toque em minha perna, a me pendurar de cabeça para baixo.

Posso agora notar seu encantamento sereno. Posso acreditar que o berro inicial, de vida radiante, esteja se transfigurando nestas palavras sinceras. Posso crer que estas simples letras sejam o toque de coração e gratidão em um silêncio de sabedoria e imensidão. E assim o faço, por que não? 

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