Pedro amava Luiza. Por uma década alimentaram as promessas que perpetuam a crença de que o amor é divino, e não humano. O casamento parecia apenas uma questão de tempo – ou do pouco tempo que restava, afinal, os trinta anos de idade ultrapassados por ambos começavam a incomodar feitos espinhos. A princípio, leves picadas. Mas, conforme a pressão aumentava, era como se faltasse muito pouco para perfurar a pele, para sangrar. Pedro fez o pedido, de acordo com as expectativas da família e dos amigos em comum. E Luiza fugiu para onde a segurança não passava de uma tábua de passar roupas escondida atrás da porta do banheiro. Foi nos braços de Luis, a quem amou instantaneamente, que admitiu a possibilidade de destino e fez Sofia – a cara do pai, o temperamento da mãe. Pedro tocou a vida.

Carolina zombava das tolices do amor, quando estar solteira a permitia ser tudo o que desejava, e dizia que não queria namorar. Ela não deu o braço a torcer. Para amar Eduardo, pegou um atalho, atravessou o Atlântico e algumas das tantas barreiras culturais, trocou a noite pelo dia e foi parar sob o mesmo teto que ele. No entanto, a garota de pouco mais de vinte anos, preenchida pelos prazeres da juventude, leal ao compromisso de ser feliz e livre em sua essência não poderia amar um homem de pouco mais de quarenta anos, pai de dois filhos, dono de uma sabedoria ora admirável, ora insuportável, e cheio de manias que ela não nunca entenderia. E então ela amou Eduardo como uma mulher mais madura, responsável pela bela casa e pelos empregados, ora corajosa, ora teimosa. E eu me assustei quando não a reconheci. Ao decidirem com o cérebro que não mais se amariam, Carolina voltou para casa, mas não lembra onde foi parar o seu coração.

Determinada a não mudar por ninguém, Ana Cláudia, por outro lado, deixou o amor falando sozinho nos momentos em que este tentou impor a ela sacrifícios cruéis para uma vida tão curta. Por mais diferentes que fossem um do outro e que o mundo ardesse sob seus pés, Ana Cláudia deu um jeito de amar Rafael desde o primeiro encontro, quando ainda adolescentes, em férias da escola. Ela o amou como pode, quando pode, e soltou qualquer rédea que o impedisse de seguir o seu caminho, da mesma forma que uma criança, com uma só mão, desfaz o laço do presente. Lembro-me como se fosse hoje de quando ela disse: “Não consigo me ver, no futuro, ao lado de outro homem”. Rafael ama Ana Cláudia e enxerga, no passado, o amanhã, mas nega o minuto presente – o único lugar em que ela deseja estar. Sem ele.

Renata pensou estar no controle quando programou o pensamento para aceitar a distância, compreender o desejo instintivo, dar mais do que receber e envergonhar o orgulho que não aceita menos do que o empate. Afinal, a inteligência, a experiência, a curiosidade, o espírito aventureiro e o corpo escultural criavam a fórmula do homem a quem poderia confiar sua fragilidade. Uma bela história, daquelas em que o sofrimento e o sacrifício seriam compensados por um estonteante final, se respeitado o tempo do Universo, de Deus, dos Deuses, de Gaia – e por aí vai.

Renata amava Rodrigo, que amava mais a si próprio e que, um dia, acreditou que ainda amava sua ex-mulher, pai de seu filho. O tempo foi degolado, como em um golpe de espada. Pegou de raspão – em Renata.

Gabriela amava João, que também foi amado por Renata, antes dessa amar Rodrigo, mas que não amou nenhuma das duas. Assim como Guilherme, que é amado por Adriana, que é amada por Ricardo, mas que não ama ninguém.

Eu poderia dizer os nomes reais de todos esses personagens – aqueles que eu conheço –, mas você também deve conhecer os seus. Com tantas linhas tortas, cruzamentos perigosos, enredos desconexos e melodias desafinadas, seria confortante defender a imagem de um amor que é mistério, bênção ou salvação. Prefiro acreditar que é só amor.

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