Por SUZANA VIER

Eram só 10 horas da manhã, mas o Metrô de São Paulo estava tão lotado que parecia horário de pico. Calor, lotação, março, sol bem alto no céu. Um dia de intenso verão em São Paulo.

Por sorte, no troca-troca de cadeiras na estação Sé, sobrou um lugarzinho e consegui um daqueles assentos em que a gente fica de costas para o vagão.

À frente, duas senhoras sentaram-se praticamente ao mesmo tempo, lado a lado, justamente no local reservado para idosos, gestantes e pessoas com crianças no colo.

As duas mulheres tinham mais de 65 anos e a mesma estatura. Do lado do corredor e com os braços nas ferragens que separam assentos e corredor sentou Joana. Este foi o nome que imaginei para aquela senhora baixinha, de cabelos grisalhos curtos e despontados. O rosto gordinho, portava um óculos redondo e grande, de lentes grossas. Dona Joana parecia bastante atenta às pessoas no vagão. Olhava de um lado pro outro, parava os olhos numa pessoa, depois em outra.

Do outro lado, no mesmo banco, Marisa – nome fictício para outra mulher de verdade – de cabelos louros encaracolados, óculos escuros com lente marrom e batom rosa claro. Marisa tinha um jeito altivo e sério. Usava uma blusa de malha levemente larga e comprida, própria para usar com sua calça tipo legging escura. Além de uma sandália aberta com um pequeno salto. Por ser magra, ela parecia mais alta que a companheira de assento no Metrô.

Uma estação depois da Sé, na Liberdade, uma moça jovem com um bebê no colo entra no vagão e fica no meio do corredor.

Ao ver a moça em pé, muito gentil, nossa Joana, decide questionar a senhora a seu lado, nossa Marisa: “por que você não sai daí pra moça sentar”.

Sem entender direito, a mulher devolve: “e por que eu?”.

“Esse banco é para idosos e mães, você não tá vendo a moça ali de pé?!”, criticou Joana, em alto e bom som.

“Então levanta você, porque eu tenho mais de 65 anos e direito de sentar aqui”, encerrou a conversa Marisa.

A primeira senhorinha ficou segundos parada, olhando a passageira ao lado, com cara de reprovação.

Percebendo a quase briga entre as mulheres, várias pessoas levantaram-se e ofereceram o lugar à mãe com o bebê. Mas, ela havia entrado no trem errado. Agradeceu e disse que desceria para pegar o sentido correto para seu destino.

Na estação Paraíso, eu, as duas senhoras e dezenas de pessoas descemos e não pude deixar de pensar: “O que levaria duas senhoras idosas a quase degladiarem-se no Metrô. Por ironia do destino, foram ríspidas uma com a outra, quando uma delas tentava ser gentil com uma terceira”.

Ainda bem que eu ia justamente encontrar uma amiga psicóloga para um café…

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