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por SILVIA NOARA PALADINO

 

No meu primeiro contato com o Sérgio, liguei do meu celular para o número de seu apartamento, por volta das 21h40, enquanto dirigia do trabalho de volta para casa. Há três dias que tentava encontrá-lo em casa. Conversamos por alguns minutos e combinamos de nos encontrar em sua casa, no sábado seguinte, por volta das 16h, quando retornaria de seus exercícios habituais no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Antes de desligarmos, sabendo da minha irresponsabilidade de guiar falando ao telefone, uma bronca: ”E cuidado você aí!”

 

Em seu apartamento, localizado em São Caetano do Sul (SP) e para onde se mudou há poucos meses com a esposa, a predominância do branco e os poucos móveis fazem da sala de estar um ambiente amplo e clean. O casal curte a casa nova, sem esquecer os detalhes que ficaram para depois, como a cortina e a mesa de jantar. Para Sérgio, no entanto, a maior urgência é o bar, que será instalado – no que depender dele – no canto ocupado, hoje, por uma poltrona. “Isso vai ficar para o orçamento só do ano que vem”, já adverte a esposa.

 

Para Sérgio – na certidão de nascimento, Sérgio Nogueira –, ter o seu próprio lar, depois de uma vida de 36 anos sob os cuidados dos pais, significa uma independência que sempre batalhou para conseguir. Inteiramente planejado com o intuito de facilitar sua locomoção na cadeira de rodas e as atividades rotineiras, o apartamento possui corredores largos, piso fácil de deslizar, portas e armários de correr e banheiro adaptado, com a pia mais baixa e barra de apoio no box. No quarto, um ‘lift’ o suspende para as transferências da cama para a cadeira, e vice-versa.

 

Vinte anos após a lesão medular que obrigaria seu filho a viver em uma cadeira de rodas, Maria não esconde a apreensão inicial com a decisão de Sérgio. Embora tentem aproveitar o tempo para sair mais, como passar os finais de semana no Guarujá (litoral de São Paulo), ela e o marido permanecem ali, na retaguarda, como estiveram ao longo de todos esses anos e, por mais que procurem disfarçar, assim será sempre. Maria conhece a personalidade forte do filho, contudo, para não contrariá-lo. Mesmo porque, quando ele quer, ele consegue. “Para o Sérgio, não existe obstáculo ou dificuldade”, diz ela.

 

Além disso, os pais nunca negaram nada ao filho, seja quando decidiu voltar a estudar e prestar vestibular para Ciências da Computação, ainda garoto, ou quando insistiu para que o pai adaptasse o carro, de forma que ele pudesse dirigir. Até mesmo quando quis substituir a cama de hospital por uma cama de casal, para ficar em casa com a namorada, seu pedido foi atendido. Tal dedicação rendeu aos pais o papel merecido de “grandes incentivadores” do filho, como Sérgio mesmo reconhece, entregando ainda que sempre foi um pouco rebelde. “Ele ficou muito mimado também, sempre foi ‘o queridinho’, tem um charme danado! É a esposa quem tenta colocar ele no lugar agora”, diverte-se Maria.

 

“Foi um acidente e acabou. Ponto.”

 

Sérgio pegou o gosto pelo surf com 12 anos, o que incentivou o pai a comprar um apartamento no Guarujá. Em um domingo de sol de setembro de 1987, ele colocou sua prancha debaixo do braço e entrou nas ondas da Praia das Pitangueiras, como já estava acostumado a fazer. E foi em um mergulho simples, despretensioso e infeliz que bateu a cabeça em um banco de areia. Primeiro, achou que fosse uma queda qualquer, até perceber que não conseguia mover os braços, nem a cabeça, que estava imersa, para recuperar o ar. Então, apagou. Recobrou a consciência já no hospital, onde entendeu que ficara tetraplégico.

 

“Eu era um menino que estava começando a vida e, de uma hora pra outra, tudo acabou, tive que começar tudo de novo. E só o tempo faz você se adaptar a isso”, diz Sérgio.

 

Nos primeiros três meses após o acidente, ele teve o pescoço e a cabeça imobilizados, o que o impedia de fazer qualquer movimento, ou mesmo sair da cama. Devido a uma pneumonia dupla, os médicos consideravam uma cirurgia muito arriscada e, além disso, os tratamentos disponíveis naquela época não tinham a mesma sofisticação dos recursos utilizados hoje em dia. A operação veio a acontecer apenas no dia 15 de dezembro, no Hospital Samaritano, onde Sérgio passou a receber também as primeiras orientações sobre como lidar com o novo corpo. Depois da cirurgia, precisou usar colar cervical por mais quatro meses e, só então, pôde começar a ficar sentado.

 

“Naquela época, ninguém tinha idéia do que era um deficiente físico. Hoje, a situação ainda é uma droga, mas melhorou”, relembra Sérgio, que desde o início se recusou a deixar de fazer qualquer coisa por se preocupar com os outros.

 

Maria conta que o período de reabilitação na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) foi fundamental para a adaptação de toda a família ao filho que havia acabado de nascer de novo. Foi lá que conheceram pessoas envolvidas em casos ainda mais dramáticos. Pessoas dificilmente vistas na rua, principalmente naqueles tempos. Para Sérgio, principalmente, os benefícios de freqüentar o grupo apareceram em pouco tempo. Ele ministrou cursos sobre lesão medular na entidade durante 14 anos, até 2003.

 

Desde então, nem os dias ruins e os momentos de revolta confundiram sua convicção de que não precisava de grandes feitos, apenas de ações, sem parar para pensar no que teria sido se não fosse aquele acidente. Por muitas vezes, surpreendeu aos próprios pais, como quando aprendeu a nadar de costas na AACD – um espetáculo que todos paravam para ver, conta Maria. Dois anos após a lesão, voltou ao colegial e, na seqüência, prestou vestibular para Ciências da Computação, na PUC-SP. Para arranjar uma desculpa para o pai – que desejava ver o filho estudando em uma faculdade de engenharia em São Caetano mesmo –, zerou propositadamente em uma das provas. Ele queria sair de sua cidade, ver coisas diferentes. Além disso, vieram o trabalho, as saídas freqüentes com os amigos, as namoradas.

 

“Perdi a ilusão de tudo, mas nunca chorei na frente dele. Um dia, ele chegou a me questionar sobre isso, dizendo que não me importava tanto com ele. Mas eu sentia mais do que todo mundo. Mãe é a que mais sente”, diz Maria, que confessa ter perdido muito de sua crença. “Esse tipo de coisa revolta, e a religião começa a incomodar. Foi um acidente e acabou. Ponto”.

 

Mãe e filho sabem o quanto a reviravolta em suas vidas transformou cada parte da casa, da rotina, dos valores de vida e, inevitavelmente, a relação entre eles. A mãe está certa de que passou a conhecer muito mais o próprio filho depois do acidente, mesmo porque todas as forças e horas passaram a ter um único propósito: o bem-estar de seu filho. Já para Sérgio, a dedicação e companheirismo da mãe, ao mesmo tempo em que tiveram papéis decisivos para todo o seu processo de adaptação à nova realidade, também geraram conflitos.
 
“De uma hora para outra, fiquei de novo dependente dos meus pais. E isso gerou muito atrito, porque depender das pessoas para tomar banho, colocar roupa, é um pé no saco! Essa foi uma das variáveis que fez com que nossa relação mudasse, mesmo porque eles se tornaram ainda mais protetores”.

 

“Vou tocar a vida de qualquer forma”

 

Em seu álbum de formatura do terceiro grau, Sérgio protagoniza os registros daqueles tradicionais momentos dos quais todos os pais se orgulham. Entre eles, estão fotos do momento da valsa, quando Maria senta no colo do filho para a dança dos formandos, a convocação para a entrega do diploma – junto à disposição dos colegas em erguer o amigo na cadeira de rodas – e a imagem daquele rapaz de sorriso espontâneo e ar conquistador entre as garotas bonitas da classe. Maria não perde a chance de elogiá-lo: “Lindo de morrer!”

 

Sérgio é ateu e garante que sempre rejeitou a idéia de freqüentar psicólogos e terapeutas. Acha tudo isso uma grande bobagem. Para Maria, tal postura resulta, em partes, da avalanche de religiões que tentaram atrair sua confiança, após o acidente, além do abalo diante da morte de pessoas muito próximas, na mesma época. O maior apoio para os momentos mais difíceis, reforça Sérgio, sempre partiu da família, dos amigos. Pessoas que nunca deixaram de encher a casa, sem dar tempo para reflexões que não levam a nada, para pensamentos desalentados. E ponto.

 

“Até hoje, se paro para pensar, fico deprimido. É bom não parar para refletir, porque essa situação é um saco mesmo. Mas vou tocar a vida de qualquer forma”.

 

Entre as inúmeras situações com as quais Sérgio teve de aprender a lidar, está a necessidade de planejar muito bem qualquer atividade, como viagens, por exemplo. Como um estrategista profissional, ele tem que pensar em tudo: nos horários do banho, em quem vai ajudá-lo com as tarefas rotineiras, nos cuidados com o corpo e com a alimentação, nas facilidades de locomoção, em toda a parafernália que precisa transportar. É um trabalho danado. Sérgio se refere a tais preocupações, no dia-a-dia, contudo, como processos tão automáticos quanto colocar o lixo na rua, fechar as janelas quando chove, colocar as toalhas para secar no varal ou checar se há novas correspondências. Deixar de fazer o que quer, nem pensar.

 

Vinte anos após o dia que se tornou um divisor de águas na sua história, Sérgio não perde a naturalidade em me contar sobre qualquer episódio dessa caminhada. Aparentemente, nenhum sinal de emoção que extravasa, palavras mais carregadas ou respiração alterada. Por outro lado, mal consigo acompanhar seus braços e mãos que se alongam e gesticulam, cortando o ar, durante todo o tempo (comandos possibilitados por cirurgias, mesmo sem a sensibilidade desses membros), além dos movimentos com a cadeira de rodas, para lá e para cá.  “As pessoas dizem mesmo que eu não pareço tetraplégico”, diz ele.

 

Para Sérgio, ainda não há tratamento mais eficaz do que existir por inteiro, preencher os dias com pequenos momentos que o impedem de viver pequeno, de viver sem graça. Como quando sorri silenciosamente ao observar, sem interferir, a esposa já impaciente por não conseguir se entender com o novo programa que ele instalou no computador.

 

Sem segredos, sem lamentos, sem tempo a perder.

Por SILVIA NOARA PALADINO 

Contar as vezes em que estive entre a multidão à espera pela virada de ano na praia do Tombo, no Guarujá, daria muito trabalho. Para isso, teria de consultar a memória de mãe, avó, tios, ex-namorados e até os antigos diários de menina dos quais não consigo me desfazer. E, ao final, as informações, certamente, seguiriam rotas diferentes, com raros cruzamentos. Digamos que seria mais fácil recordar-me dos anos em que o cenário da troca de calendário foi outro.

De qualquer forma, em todas elas, a queima de fogos à meia-noite foi mais graciosa e barulhenta graças à tradicional contribuição de alguns bons milhares de reais de um único homem. Parece que é conhecido por ‘seu’ Orlando, mas, para mim, é só o proprietário de uma das belas casas localizadas de frente para o mar do Tombo. Na verdade, seu refúgio de veraneio, que cultiva a simplicidade de uma moradia de praia, não perdeu a minha preferência nem mesmo para as novas e modernas mansões vizinhas.

“O homem tá numa tristeza que só”, foi o desabafo que consegui roubar de uma conversa alheia, no calçadão da praia, poucas horas antes da passagem para 2008, enquanto os últimos raios de sol se desfaziam por detrás do morro. O comentário partiu do velho caseiro da casa de madeira – como costumo chamar –, que parecia dividir com o patrão a frustração de ser privado de um prazer que foi seu por dezenove anos consecutivos. Depois de tanto tempo, ‘seu’ Orlando teve de recolher os fogos para dentro de seus muros. Segundo o caseiro, a prefeitura apareceu por lá e, por segurança, impôs uma série de restrições.

No final das contas, diria que a tristeza do homem cuja fisionomia me escapa sem possibilidade de retorno foi, naturalmente, repartida entre os que lamentaram o espetáculo decadente de réveillon da praia do Tombo – prejudicado, também, pelas cadeiras vazias daqueles que se voltaram para outro palco, o das Astúrias –, as fracas ondas que se quebraram em desejos de ano novo e as reflexões solitárias de que, bem, o mundo não é nada lá muito justo, não é mesmo?

Acontece que as primeiras horas de 2008 também não foram, exatamente, como eu imaginei. Muito menos repetiram dias e noites de novos anos passados. Desta vez, os abraços de comemoração foram embalados pela música eletrônica que se alastrava de um dos quiosques do Tombo a todos os cantos da praia. A cerveja não caiu bem. A habitual choradeira da transição para o novo calendário chegou com atraso de dois dias, quase me sufocando. Sem falar da festa que teve fim no pronto socorro do Hospital Ana Costa, em Santos. Nada de grave. Só um azarento embriagado que, no ritual das sete ondas, estourou o nariz na areia. Solidariedade? Mais ou menos.

Até a Mel, um poodle de seis anos, um quilo e avessa a pisar na grama, comeu o que não deveria – “foi muito parmesão”, alguém arriscou – e precisou correr para São Paulo. Ficou internada, mas já passa bem. Amigos fundamentais também foram pegos de surpresa por problemas e tiveram de abrir mão da festa. O primeiro dia do ano foi de nuvens e pancadas de chuva. O romance de verão teve possibilidades cortadas antes mesmo de subir a serra.

A chegada de 2008 não foi aquilo que esperei, é verdade, assim como não deve ter sido para tantos outros. Eu poderia dizer que o ano não começou bem. Mas estou contente.

Por Silvia Noara Paladino

Você poderia reservar um assento no corredor para mim, por favor? – solicito à funcionária da companhia aérea Jet Airways, no aeroporto de Suvarnabhumi, em Bangkok (Tailândia).

É difícil precisar em que momento o meu pesadelo começou, no entanto, se for para arriscar um palpite, diria que o meu pedido à tailandesa do balcão do check-in – uma moça de seus vinte e poucos anos, tom de voz baixo e cabelos cuidadosamente arrumados, sem um fio sequer fora do lugar – foi a porta de entrada para aquela fase de transição entre a vigília e o sono. Nesta etapa, a facilidade de se despertar é maior. Mas o fato é que adormeci como uma pedra.

Desde o início dos planos de minha viagem ao Oriente, a Índia aparecia como um elemento indispensável. Afinal, são três anos de prática de yoga e um fascínio curioso pela cultura indiana – aquela dos livros, dos documentários e das repetitivas matérias publicadas em cadernos de turismo e revistas especializadas. A passagem pelo país hindu, que se estenderia por uma semana e três cidades visitadas, se reduziu a dois dias e duas localidades exploradas o mínimo possível. Mas começo a me adiantar demais nos relatos. Voltemos ao pior vôo de toda a minha vida.

Coloquei-me entre os primeiros passageiros a embarcarem no vôo da Jet Airways, rumo à Delhi. Já havia algumas horas desde o último impulso desesperado de correr até o banheiro mais próximo – uma atividade que passa a fazer parte do dia-a-dia de um turista na Tailândia. De qualquer forma, já sentia um certo alívio de saber que garantira um lugar no corredor, no caso de qualquer emergência. Por alguns instantes, não me dei conta da gravidade de estar sentada na última fileira de poltronas da aeronave, bem ao lado dos lavatórios e da área de acesso restrito aos comissários.

Enquanto os indianos começavam a embarcar, procurei dar início a todo o meu ritual de vôo: separei um livro e o MP3 player, coloquei a bagagem de mão no compartimento e acomodei o cobertor azul-marinho sobre as pernas. Mas logo me dei conta de que a tranquilidade tão desejada para as próximas três horas e meia de viagem exigiria uma concentração digna de um mestre yogi.

O que tentei abstrair, sem sucesso, utilizando todas as técnicas de meditação que aprendi com a yoga, foi uma baderna que não se vê nem em feira de rua, rodoviária em véspera de ano novo ou concentração de camelôs na 25 de março, em época de Natal. Passageiros que não conseguiam encontrar seus lugares. Gritaria para resolver quem se sentaria aqui ou ali. Idas e vindas incessantes no estreito corredor. Vinte homens da Federação Indiana de Kong Fu – todos acima de um metro e oitenta de altura. Uma indiana bem acima do peso, com a barriga propositalmente deixada de fora pelo sári amarelo-ouro, sendo fotografada pelo marido em todos os cantos do avião. Uma TV, daquelas individuais, posicionadas na poltrona a frente, quebrada – a minha. Um senta e levanta dos infernos. Um barulho de tirar Dalai Lama do sério.

Em meio ao caos, a tripulação do vôo se completava por quatro comissárias tailandesas e uma indiana. Apenas um homem – também indiano. Delicadas e muito educadas, como geralmente são, as aeromoças tailandesas ganhavam aspecto de bonecas de cêra, por conta do pó excessivo em suas faces, mas não conseguiam esconder o semblante assustado com tamanha desordem. Elas tentavam acalmar a ansiedade dos homens de bigode largo e de suas esposas espaçosas. Se espremiam no corredor com os passageiros que pareciam estar 24h sem ir ao banheiro, ou que simplesmente queriam ficar de pé. Tentavam resolver os conflitos pela busca dos lugares certos. Suavam. Certamente, rezavam – até para os deuses hindus. Assim como eu.

– Senhor, retorne ao seu assento, por favor. Os avisos de apertar cintos ainda estão acessos – dizia uma das comissárias, cinco segundo após a aeronave sair do chão, a um indiano que pouco se importou pelo aviso.

Eu olhava para os lados, em busca de compreensão, consolo ou inspiração, mas o único alívio que pude sentir foi em reconhecer a indignação silenciosa nos rostos das tailandesas. Dentre todos os passageiros, eu era a única de nacionalidade diferente. E, ainda por cima, mulher. O que, para o indiano sentado ao meu lado esquerdo, lhe dava o direito de não respeitar o meu espaço. Ele tentou consertar a minha TV (sem que eu pedisse), escolher as músicas que eu deveria ouvir, me fez levantar pelo menos cinco vezes e, em vários momentos, manteve o olhar fixo em mim, observando cada ação de minhas mãos.

Se, em certas ocasiões, a sensação de chamar a atenção como se estivesse nua em praça pública me fez lembrar de todos os avisos que recebi, ao contar que iria sozinha à Índia, em outros momentos, eu parecia simplesmente invisível. Nas idas e vindas dos lavatórios, os indianos pisavam no meu pé, esbarravam no meu braço – ao ponto de me machucar –, se apoiavam no encosto da minha poltrona, me sufocando no já limitado espaço da classe econômica e, para melhorar, não pediam desculpas.

O pesadelo se estendeu ao longo de aproximadamente duas horas e meia de vôo, tempo suficiente para levar minhas forças ao esgotamento total, ao incômodo da garganta seca, à aridez do deserto, à impotência de uma vítima rendida.

Por favor, existe qualquer outro assento disponível nesse vôo? – perguntei, com lágrimas nos olhos, às comissárias, que estavam reunidas no cubículo reservado à tripulação.

Esse vôo está cheio. Você terá que ficar no seu assento – respondeu, com a mesma agressividade natural que notei em cada passageiro daquele avião, a comissária indiana.

Ela só perguntou se existe outro assento disponível –, tentou me ajudar, ao compreender instantaneamente minha aflição, uma das tailandesas.

Regressei ao meu assento, sem esperanças de que a minha voz solitária pudesse ressoar em um lugar sem acústica, sem ouvintes, sem solidariedade, sem respeito ao próximo.

– Você está sozinha, não é? – perguntou-me a mesma comissária tailandesa, ao me acompanhar até minha poltrona.
– Sim.
– Venha, eu vou encontrar outro assento para você – disse-me, quase que me pegando pela mão, querendo me confortar.
– Muito obrigada.

Acredito que eu só tenha despertado do pesadelo e do vôo mais turbulento em que já estive ao deixar a aeronave. Já a decepção de encontrar um povo rude, grosseiro e arrogante – ao contrário de todas minhas expectativas –, infelizmente, não foi apenas um sonho.