Por SILVIA NOARA PALADINO

Do avanço do tempo, originam-se novidades que envelhecem precocemente, todos os dias. Certas coisas, porém, parecem indiferentes à modernidade, às novas tendências da moda, à verticalização das cidades, à mobilidade tecnológica e aos produtos lights e diets que se alastram pelas prateleiras dos supermercados.

Situada de frente para uma linha de trem desativada, que outrora transportava materiais para construção do cais do Porto de Santos, uma modesta casa de esquina, número 20, não tem campainha. Os muros descascados e o portão de grades estreitas, separadas por largos vãos, escondem pouco da entrada. Vasos de plantas e esculturas decoram os degraus da escada que leva à porta principal. Bato palmas – uma, duas, três vezes, aumentando de pouco em pouco a força do contato entre as mãos, como quem receia que não procurou direito a campanhia, e pensa: “deve estar em algum lugar por aqui…”

Quem ouve o tímido chamado e atende à porta é Serafim Gonzáles, 72 anos, um senhor de barba e cabelos inteiramente brancos, pele clara e olhos de um azul agudo, gracioso. Parece ter sido interrompido, o que, de forma alguma, diminui a gentileza e disposição de anfitrião. Ator e artista plástico, Serafim vive em Santos desde a infância e, há 35 anos, mantém o mesmo endereço, junto à esposa Mara Antônia de Mello Franco Hussemann, que conheceu no ano de 1953.

Ao cruzar a entrada, sobre o taco de madeira, os saltos dos sapatos anunciam os passos e, então, avista-se cômodos integrados, sem portas ou divisórias que limitem o alcance do olhar para todo o espaço. Não há sala de estar, apenas um velho sofá de dois lugares, onde nos sentamos. De aparatos eletrônicos, somente uma televisão obsoleta de 14 polegadas e um telefone com fio. Quadros pregados às paredes mostram pinturas de rostos femininos, um violoncelo repousa em um canto seguro da parede e uma mesa serve de apoio para as esculturas formadas de arame e jornal, uma das técnicas dominadas pelo artista plástico.

Se lar é atelier, ou atelier é lar, esta parece uma questão de pontos de vista. E todos eles levam à face esculpida de uma jovem mulher, obra de arte que engessa um breve instante capturado pelo escultor. Com cabelos longos e acomodados sobre o ombro esquerdo, traços delicados e nariz elegante moldados no gesso, a escultura flagra a juventude de Mara, aos 20 anos, como se estivesse ali para manter acesa a consciência de onde vieram, e que o sorrateiro perecimento do corpo é a grata evidência das escolhas que os trouxeram até aqui, 50 anos depois.

Estáticas, mas modeladas para abrigar tudo o que couber sobre si mesmo, as esculturas não são a única fonte das memórias de Serafim.

Na esquina da Praça José Bonifácio com a Rua Brás Cubas, no centro histórico de Santos, o Teatro Coliseu parece ter vagado incólume pelos anos de decadência do centro da cidade e da valorização da orla da praia. Inaugurado nos prósperos tempos de 21 de julho de 1924,quando o comércio internacional do café se expandia, o teatro tornou-se rota de atrações culturais importadas de todo o mundo – como a companhia Velasco e suas bailarinas espanholas, a francesa Bataclan, os bailados russos e as óperas nacionais e estrangeiras –, já que o Porto funcionava como a porta de entrada para o Brasil.

Sou ator por causa do Coliseu, e o teatro só existiu por causa do Porto. Para não perderem tempo, já que os navios costumavam ficar atracados por dias, as companhias faziam paradas obrigatórias na casa”, diz Serafim, lembrando que a arte era uma forma de os imigrantes se sentirem um pouco mais próximos de suas origens. Para o artista, ao contrário, o Coliseu seria o princípio de tudo, palco onde iniciaria a sua carreira profissional, aos 14 anos, com a peça Athenea – dirigida por Newton de Souza Telles e baseada em poemas de sua mãe, Itacy Telles.

Quando o Coliseu foi construído, ainda não havia eletricidade e sistema de ventilação, por isso tantas janelas. Mas, para evitar a entrada de não pagantes e a evasão de bilheteria, os administradores do teatro decidiram fechá-las. Era um calor insuportável, um verdadeiro tumulto!”, conta o artista, que a cada ponto final experimenta uma nova posição no sofá e leva as mãos cerradas à frente da boca, para tossir. É a partir desse momento, até reconstituir uma cena ou informação armazenada no fundo de seu arquivo mental, que Serafim se aquieta, em longos e confortáveis silêncios.

Então,o ritual se repete e ele divaga: “São Paulo é o pior lugar para se viver, o povo não tem identidade. Com a imigração, as pessoas perdem suas origens, mas, em Santos, isso aconteceu só recentemente”, analisa ele. É por isso que valoriza a versão mais primitiva dos hábitos, como o de “tocar nos livros, de sentir o cheiro das páginas”, ou a confiança de, às vezes, dispensar a imagem (“com uma caneta, você vai à lua”), e até mesmo tudo aquilo que não é essencial: “Um ator e um banquinho já fazem um espetáculo”.

Talento, por sinal, parece definir o código genético da família, ou assim diria Serafim. A novela mais marcante de sua carreira foi “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro, da qual participou nas duas filmagens: a primeira, em 1973, quando criou as 200 esculturas exibidas ao longo dos capítulos; na segunda, em 1991, a Rede Globo tentou vários artistas para a reprodução das obras, mas apenas um teria a habilidade de realizá-las com a rapidez necessária e seria contratado: Daniel, filho de Serafim. “Tem coisa que não se ensina, só se aprende”, diz o genitor.

Aprende-se, por exemplo, que o triunfo é perecível. Quando as rotas fluviais começaram a ser substituídas pelas aéreas, sem falar na popularização do cinema, que viria a ofuscar as obras teatrais, o Coliseu entrou em processo de definhamento. Na década de 80, quando o teatro passou a ser restrito às exibições cinematográficas, o Cine Coliseu foi relegado a sessões de filmes pornográficos, de faroeste e de Kung fu, até shows de strip-tease. Sob ameaça de se tornar uma loja de calçados, um estacionamento ou um shopping, quase foi demolido. A queda do Coliseu acompanhava a derrocada de Santos. Depois de tombado, a decisão de restaurar o edifício foi finalmente concretizada, sem reservas de entraves políticos, falta de verba e morosidade.

A recuperação do Coliseu se estendeu por 10 anos, e o teatro foi reaberto em 26 de janeiro de 2006, aniversário de Santos, com a execução da Nona Sinfonia de Beethoven pela Orquestra Sinfônica Municipal de Santos. Entre os mais de 900 convidados, estava Serafim Gonzales, que aponta falhas da obra: a restauração (que eu considero, na verdade, uma reforma) deixou de observar coisas que vão além do estético. Faltou o funcional, o que um teatro realmente deve conter, com melhorias no sentido de visibilidade e acústica. O Coliseu precisava de reparos mais profundos”.

Novamente, o silêncio, com a fixação do olhar para além dos limites da casa e do avanço do final de tarde. “O teatro me dá saudades, sinto falta da energia que fica acumulada, dessa troca com o público”, desabafa Serafim, que tem se dedicado, ultimamente, a estudar os orixás, tema da próxima exposição de esculturas que está preparando.

* Esta reportagem foi produzida em agosto de 2006. Serafim Gonzáles faleceu em 29 de abril de 2007, em Santos, de insuficiência respiratória. Em mais de 50 anos de carreira, atuou e dirigiu mais de 100 peças de teatro, 21 filmes, 30 novelas e inúmeras esculturas.

Por SUZANA VIER

Eram só 10 horas da manhã, mas o Metrô de São Paulo estava tão lotado que parecia horário de pico. Calor, lotação, março, sol bem alto no céu. Um dia de intenso verão em São Paulo.

Por sorte, no troca-troca de cadeiras na estação Sé, sobrou um lugarzinho e consegui um daqueles assentos em que a gente fica de costas para o vagão.

À frente, duas senhoras sentaram-se praticamente ao mesmo tempo, lado a lado, justamente no local reservado para idosos, gestantes e pessoas com crianças no colo.

As duas mulheres tinham mais de 65 anos e a mesma estatura. Do lado do corredor e com os braços nas ferragens que separam assentos e corredor sentou Joana. Este foi o nome que imaginei para aquela senhora baixinha, de cabelos grisalhos curtos e despontados. O rosto gordinho, portava um óculos redondo e grande, de lentes grossas. Dona Joana parecia bastante atenta às pessoas no vagão. Olhava de um lado pro outro, parava os olhos numa pessoa, depois em outra.

Do outro lado, no mesmo banco, Marisa – nome fictício para outra mulher de verdade – de cabelos louros encaracolados, óculos escuros com lente marrom e batom rosa claro. Marisa tinha um jeito altivo e sério. Usava uma blusa de malha levemente larga e comprida, própria para usar com sua calça tipo legging escura. Além de uma sandália aberta com um pequeno salto. Por ser magra, ela parecia mais alta que a companheira de assento no Metrô.

Uma estação depois da Sé, na Liberdade, uma moça jovem com um bebê no colo entra no vagão e fica no meio do corredor.

Ao ver a moça em pé, muito gentil, nossa Joana, decide questionar a senhora a seu lado, nossa Marisa: “por que você não sai daí pra moça sentar”.

Sem entender direito, a mulher devolve: “e por que eu?”.

“Esse banco é para idosos e mães, você não tá vendo a moça ali de pé?!”, criticou Joana, em alto e bom som.

“Então levanta você, porque eu tenho mais de 65 anos e direito de sentar aqui”, encerrou a conversa Marisa.

A primeira senhorinha ficou segundos parada, olhando a passageira ao lado, com cara de reprovação.

Percebendo a quase briga entre as mulheres, várias pessoas levantaram-se e ofereceram o lugar à mãe com o bebê. Mas, ela havia entrado no trem errado. Agradeceu e disse que desceria para pegar o sentido correto para seu destino.

Na estação Paraíso, eu, as duas senhoras e dezenas de pessoas descemos e não pude deixar de pensar: “O que levaria duas senhoras idosas a quase degladiarem-se no Metrô. Por ironia do destino, foram ríspidas uma com a outra, quando uma delas tentava ser gentil com uma terceira”.

Ainda bem que eu ia justamente encontrar uma amiga psicóloga para um café…

POR SILVIA NOARA PALADINO

Parece mais humano do que inteligente sofrer de algumas paranóias. Umas mais crônicas, outras que se dissolvem aos solavancos de uma expiração mais áspera. Qualquer um está sujeito, afinal, a se perder da realidade de vez em quando, ou não?

Por volta das onze e tantas de uma noite comum da semana, dirigindo de volta para casa, Gabriela pouco enxergava através da janela do passageiro do carro, seja pela atenção ao volante, pelos vidros protegidos com ‘insulfilm’ ou, mais provável, pela resistência tímida em encarar o estranho admirador que conduzia o automóvel ao lado. Pista expressa, poucos semáforos. Por alguns quilômetros, se fez passar por desentendida. Pouco mais adiante, passou mesmo foi o seu número de telefone.

– Me dá o seu celular? – arriscou o rapaz, agitando o seu próprio aparelho no ar.

Gabriela desceu o vidro elétrico (só até a metade) e, antes de dizer qualquer coisa, radiografou braços, mãos e rosto alheios. Nenhuma orelha de abano, aliança de compromisso ou tendências psicopatas. Ao contrário disso, surpreendeu-se ao mapear os cabelos de tom loiro escuro, com lisos fios acompanhando a longitude do pescoço; os ombros largos e fortes, expostos pela camiseta regata; o maxilar quadrado, feito os guerreiros da era medieval, ou pelo menos aqueles retratados no cinema; e o limitado espaço do Peugeot 206 para a sua estatura.

– Anota aí! – rendeu-se ela, ditando pausadamente cada dígito.

André tem um metro e noventa e três de altura, como disse precisamente à Gabriela no primeiro encontro, e ela se arrependeu por não ter optado por seu maior salto alto. Lamentou-se também pelo vestido nada apropriado para uma noite típica de verão e pouco sedutor – em seu julgamento – para um menino tão bonito: malha espessa e mangas na altura dos cotovelos; colo encoberto pela gola careta; e saia de comprimento nem charmoso, muito menos ousado, deixando apenas joelhos e panturrilhas à mostra. Gabriela decretou em pensamento: “Certeza que isso só vai durar uma noite”.

Aos seus vinte e seis anos e com gostos refinados, Gabriela, por outro lado, nunca se sentiu à vontade em jantares românticos à luz de velas e em relacionamentos mais adultos do que cômicos. Encantou-se ainda mais com André quando este confessou ter vinte e dois anos, não entender nada de cervejas e não ter concluído formação superior, até então. Sem falar na pequena cicatriz no lábio superior, na força das mãos – às vezes, descontrolada – ao redor de sua cintura e nas histórias sem qualquer glamour.

É evidente que Gabriela não acredita em príncipes. Exceto pelo porte físico de André, como o de personagens da mitologia humanizados na escultura grega – ou perto isso –, ele não teria o menor talento para o papel. Mas, ao terceiro encontro, Gabriela queria mais é ser Gata Borralheira. Ela acharia graça ao vê-lo embarcar pela primeira vez em um avião, teria orgulho ao apresentá-lo a seus amigos de infância, e revelaria gentilmente a ele o que mais a satisfaz. Ela o ajudaria no trabalho de conclusão de curso e até toleraria a molecagem da turma de amigos. Era fato.

Mas o quarto encontro não aconteceu. André disse que ligaria no domingo, mas só apareceu na segunda-feira, culpando a chuva pela preguiça invencível. No sábado, Gabriela voltou mais cedo de viagem com plano traçado – eles assistiriam a um lançamento que, em situações comuns, ela jamais tocaria na prateleira da locadora, ficariam largados sobre o tapete da sala, entre travesseiros e almofadas coloridas, e fariam amor ali mesmo. Perderiam o final do filme e dormiriam só perto do amanhecer. Mas André preferiu não contrariar a mãe, que queria o filho em casa. Chegado mais um final de semana, Gabriela tornou-se segunda, até terceira opção, atrás de compromissos importantes de André. Primeiro, ela questionou o que seria verdade ou mentira entre todas as desculpas. Mas o fato é que isso não fazia diferença. As duas respostas estavam erradas.

A ilusão de Gabriela teria virado prato principal do dia, mas foi esmagada como o alho que nem mais se percebe no arroz depois de cozido. E ela diz, novamente, que tal estupidez jamais irá se repetir.

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